“A distinção entre direita e esquerda continua a existir porque continua a existir a desigualdade” – Norberto Bobbio
Por que milhões de trabalhadores brasileiros, beneficiários de políticas públicas que ampliaram sua renda, seu acesso à educação, ao crédito e à proteção social, passaram a se identificar politicamente com a direita ou com a centro-direita?
A resposta parece simples, mas está longe de sê-lo.
Segundo pesquisa recente do Datafolha, 35% dos brasileiros afirmam identificar-se como de direita, 11% como de centro-direita, 17% como de centro, 7% como de centro-esquerda e apenas 22% como de esquerda. Mais do que uma fotografia eleitoral, esses números revelam uma profunda transformação da cultura política brasileira.
Durante boa parte do século XX, imaginava-se que as escolhas eleitorais eram determinadas principalmente pela posição econômica dos indivíduos. Trabalhadores tenderiam a apoiar partidos voltados à ampliação dos direitos sociais, enquanto empresários privilegiariam projetos comprometidos com a liberdade econômica e a redução da intervenção estatal.
A experiência brasileira das últimas décadas demonstra que essa explicação se tornou insuficiente.
O comportamento político contemporâneo é influenciado por fatores muito mais complexos do que o interesse econômico imediato. Segurança pública, religião, costumes, patriotismo, mérito individual, identidade cultural e sentimento de pertencimento passaram a ocupar posição central na formação das preferências eleitorais.
Foi nesse contexto que surgiu e se consolidou o antipetismo.
Inicialmente, tratava-se da rejeição a um partido político específico, intensificada pelos escândalos do Mensalão, pela Operação Lava Jato e pela grave crise política que culminou no impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Independentemente das revisões posteriores promovidas pelo Poder Judiciário e das críticas dirigidas aos métodos empregados em algumas investigações, consolidou-se, para parcela expressiva da população, uma associação duradoura entre o Partido dos Trabalhadores e a corrupção.
Entretanto, o antipetismo rapidamente ultrapassou os limites da rejeição partidária.
Transformou-se em uma identidade política, reunindo indivíduos que passaram a compartilhar uma visão comum sobre o papel do Estado, a economia, os costumes, a segurança pública e determinados valores culturais. A rejeição ao PT converteu-se em um elemento de pertencimento político e social.
Contudo, concentrar a análise exclusivamente nesse fenômeno significaria ignorar uma mudança ainda mais profunda.
O eleitor do século XXI vota cada vez menos apenas como trabalhador, empresário, servidor público ou aposentado. Vota também como membro de uma comunidade religiosa, de um grupo cultural, de uma geração, de uma região e de um universo simbólico com o qual se identifica.
Essa transformação ajuda a compreender um aparente paradoxo brasileiro.
Milhões de trabalhadores assalariados, aposentados e beneficiários de políticas públicas identificam-se como conservadores ou liberais, embora diversas das políticas que ampliaram sua renda, escolaridade e proteção social tenham sido historicamente defendidas por governos identificados com a centro-esquerda.
À primeira vista, essa realidade parece contraditória.
Talvez não seja.
A literatura sociológica contemporânea demonstra que os indivíduos não constroem sua identidade exclusivamente a partir da posição econômica que ocupam na sociedade. Como observa Jessé Souza, a percepção de pertencimento frequentemente é mediada por expectativas de ascensão social, pelo ideal de mérito individual e pela forma como cada pessoa interpreta sua própria trajetória.
Em perspectiva semelhante, Pierre Bourdieu demonstrou que os indivíduos disputam não apenas renda ou patrimônio, mas também reconhecimento, prestígio e capital simbólico. Valores culturais, estilos de vida, formas de consumo e distinções sociais tornam-se elementos fundamentais da construção das identidades.
Sob essa ótica, compreende-se melhor por que políticas públicas de inclusão podem produzir reações ambivalentes. Quando universidades, aeroportos, espaços culturais ou determinadas profissões tornam-se mais acessíveis às camadas populares, parte da sociedade percebe essas mudanças não apenas como ampliação da igualdade de oportunidades, mas também como redução de distinções sociais historicamente estabelecidas.
Não se trata, necessariamente, da rejeição aos benefícios concretos proporcionados por essas políticas. Muitas vezes, o desconforto decorre da percepção de que antigas hierarquias sociais foram relativizadas.
O sentimento de pertencimento passa, então, a exercer influência maior do que o interesse econômico imediato.
Esse fenômeno não é exclusivo do Brasil.
O historiador norte-americano Thomas Frank demonstrou que, em diversas democracias contemporâneas, trabalhadores frequentemente orientam suas escolhas políticas por valores culturais, religiosos e identitários, mesmo quando essas escolhas não coincidem integralmente com seus interesses econômicos de curto prazo.
As redes sociais aceleraram esse processo.
A comunicação política tornou-se mais emocional, mais personalizada e menos racional. Algoritmos reforçam convicções preexistentes, aproximam indivíduos com visões semelhantes e reduzem o contato com perspectivas divergentes. A política deixa de ser apenas disputa de programas de governo para se transformar em disputa de identidades.
Esse talvez seja um dos maiores desafios da democracia contemporânea.
Democracias maduras não exigem unanimidade. Exigem cidadãos capazes de confrontar suas próprias convicções com os fatos, reconhecer acertos e erros independentemente da identidade partidária de seus protagonistas e avaliar políticas públicas por seus resultados concretos.
O fortalecimento das identidades políticas é um fenômeno inerente às democracias modernas. O problema surge quando elas substituem integralmente o pensamento crítico e tornam impossível o diálogo entre posições divergentes.
Compreender esse processo não significa condenar nem celebrar as escolhas do eleitorado. Significa reconhecer que, nas democracias do século XXI, as disputas políticas deixaram de ocorrer exclusivamente entre interesses econômicos. Elas passaram, sobretudo, a ocorrer entre identidades, valores e diferentes formas de compreender o lugar que cada indivíduo ocupa — ou acredita ocupar — na sociedade.
Talvez seja essa a principal transformação da política brasileira nas últimas décadas.
Essas são as reflexões.
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