Todo apoio à Constituinte na Venezuela

"Não se trata de fazer vista grossa às contradições do governo Maduro; trata-se, de forma veemente, de defender a democracia, a soberania nacional, a autodeterminação dos povos e combater de forma implacável o imperialismo e a direita neoliberal e golpista que, há tempos, é responsável direta pela radicalização da crise no país. Não existe uma terceira posição: a disputa se dá concretamente entre o governo Maduro e a direita apoiada pelos governos neoliberais da América Latina, aliada aos EUA e ao rentismo internacional", diz o senador Lindbergh Farias (PT-RJ)

Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, exibe cópia da Constituição durante entrevista coletiva no Palácio Miraflores, em Caracas, na Venezuela, no fim de dezembro. 30/12/2014 REUTERS/Carlos Garcia Rawlins
Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, exibe cópia da Constituição durante entrevista coletiva no Palácio Miraflores, em Caracas, na Venezuela, no fim de dezembro. 30/12/2014 REUTERS/Carlos Garcia Rawlins (Foto: Lindbergh Farias)

Muito tem se falado sobre a Venezuela nos últimos dias. A mídia empresarial, em especial, transformou a crise política venezuelana em assunto prioritário - ao mesmo tempo em que fecha os olhos aqui no Brasil para o governo golpista de Temer, que saqueia os cofres públicos para comprar votos e enterrar a denúncia que será apreciada logo mais na Câmara, mantendo-se no poder sem receber um voto sequer.

O texto abaixo, assinado pela presidenta e pela secretária de relações internacionais do PT, publicado antes da realização do plebiscito, já adiantava a nossa posição: o povo venezuelano deve decidir soberanamente os seus rumos. E o fez, através do voto popular: mais de 8 milhões de venezuelanos compareceram às urnas. Os que tentam deslegitimar o resultado esquecem que o comparecimento, mesmo sendo o voto facultativo, foi maior do que o eleitorado que participou das eleições presidenciais da França.

Não se trata de fazer vista grossa às contradições do governo Maduro; trata-se, de forma veemente, de defender a democracia, a soberania nacional, a autodeterminação dos povos e combater de forma implacável o imperialismo e a direita neoliberal e golpista que, há tempos, é responsável direta pela radicalização da crise no país. Não existe uma terceira posição: a disputa se dá concretamente entre o governo Maduro e a direita apoiada pelos governos neoliberais da América Latina, aliada aos EUA e ao rentismo internacional.

Nossa solidariedade ao povo venezuelano, ao processo constituinte convocado pelo presidente Maduro e à revolução bolivariana! A saída para a crise está no aprofundamento da democracia e das conquistas sociais!

Gleisi e Monica Valente: Convocar povo para decidir seu futuro

A convocação de uma Constituinte na Venezuela tem sido motivo de crítica por parte da oposição do país e do governo sem credibilidade e sem voto do Brasil.

A votação deste domingo (30) naquele país escolherá representantes regionais e de vários setores profissionais, entre eles pescadores e empresários, estudantes e trabalhadores urbanos e rurais, pessoas com deficiência e aposentados.

Mais de 52 mil venezuelanos se inscreveram para concorrer às 500 cadeiras, segundo o Conselho Nacional Eleitoral. O que há de ditatorial num escrutínio direto? Voto é voto, regional, setorial ou nacional.

A Assembleia tratará de temas diversos, como a formulação de um acordo de paz entre governo e oposição, um novo e fundamental modelo para acabar com a dependência do petróleo sobre a economia local, a consagração de direitos sociais, democracia participativa, modificações no sistema judicial, a identidade pluricultural, os direitos da juventude e até medidas para proteção ambiental.

Todas as mudanças terão de ser posteriormente aprovadas em referendo pela população. Mais uma decisão popular, o que parece não ser do agrado do governo ilegítimo do Brasil.

Ao convocar o povo para decidir sobre seu próprio futuro, o presidente Nicolás Maduro afrontou os interesses de quem, invariavelmente, se posiciona contra o uso dos recursos do petróleo na área social.

O governo Maduro, como todas as gestões, tem erros e acertos. Pode-se gostar ou não dele, mas foi eleito pelo voto popular, tem mandato até 2018, como era o de Dilma.

Há pelo menos dois anos, resiste aos golpes da oposição, a qual iniciou um violento processo de desestabilização política que mergulhou a nação no caos. Assim, os opositores de Maduro alimentam uma polarização que deixou mais de cem mortos, de ambos os lados.

Nós, do PT, desejamos que essas divergências possam ser dirimidas de forma pacífica. Outros, infelizmente, apostam no isolamento da Venezuela e no acirramento de seu conflito interno.

Nicolás Maduro não personifica os fardados de alta patente que assombraram nosso continente nos anos 1960 e 70. Seu partido venceu 17 das 18 eleições desde 1998, quando Hugo Chávez ganhou pela primeira vez a Presidência.

Suas atitudes, inclusive, contrastam em muito com a atual experiência de alguns vizinhos latino-americanos, que viram a democracia ruir após golpes parlamentares ou judiciais patrocinados pela união entre as elites econômicas e os partidos conservadores.

O plebiscito organizado pela oposição recentemente não seria possível em uma ditadura sanguinária, conforme seus detratores afirmam que é o governo de Maduro.

A exemplo do que ocorre em outros locais, a elite venezuelana também não quer dividir o bolo com os mais pobres, algo representativo da herança cultural e da colonização dos povos do continente. No entanto, precisará de votos para impor sua agenda diante do governo Maduro.

Aqueles que, aqui no Brasil, clamam por democracia na Venezuela deveriam começar a clamar por democracia também no nosso país, uma vez que ela foi usurpada por um golpe parlamentar que arrancou uma presidenta inocente e legitimamente eleita e que mantém no poder um corrupto comprovado, com altíssima rejeição popular.

Antes de bisbilhotar na casa dos outros, cuidemos da nossa. Na Venezuela, como no Brasil, a solução é o voto.

Gleisi Hoffmann é senadora (PT-PR) e presidenta nacional do PT

Monica Valente é secretaria de Relações Internacionais do Partido dos Trabalhadores

 


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