Opinião

Uma nova Conferência de Berlim?

O fato é que o protagonismo que o Brasil alcançou com Lula incomoda a ordem global decadente

Sede da Otan em Bruxelas
Siga o 247 no Google Notícias Seguir no Google Notícias Adicione o Brasil 247 como fonte preferencial no Google Apoie o jornalismo independente Apoie o 247

Um pouco de história. A Conferência de Berlim que aconteceu no final do século XIX, foi uma reunião convocada pelo chanceler Bismarck, para que países dividissem o continente africano, acomodassem interesses e seguissem explorando nossos irmãos e suas riquezas.  

 Estiveram presentes as nações imperialistas do século XIX: Estados Unidos, Rússia, Grã-Bretanha, Dinamarca, Portugal, Espanha, França, Bélgica, Holanda, Itália, Império Alemão, Suécia, Noruega, Império Austro-Húngaro e Império Turco-Otomano.

 Alguns países participantes da conferência não possuíam colônias na África, cada um deles tinha interesse em obter um pedaço do território africano ou garantir tratados de comércio vantajosos.  

 Ou seja, o objetivo da conferência era “dividir para explorar”.

 O evento durou três meses, todas as negociações eram secretas, mas oficialmente, a reunião serviria para garantir a livre circulação e comércio na bacia do Congo e no rio Níger e estabelecer regras e ações pelo fim da escravidão no continente, tudo mentira; na verdade o objetivo era resolver conflitos existentes entre os países pelas possessões africanas e dividir amistosamente os territórios explorados entre as potências, ou seja, nunca é pelas razões declaradas e sempre é por dinheiro e pela perpetuação da exploração.  

 Todos os países presentes tinham interesse em adquirir, manter ou ampliar a exploração nos territórios, visto que a África é um continente rico em matérias-primas.  

 A Conferência de Berlim não solucionou os litígios de fronteiras disputados pelas potências imperialistas na África, o que acabou levando o mundo à Primeira Guerra Mundial.

 Mais de um século depois um cidadão austríaco, autointitulado “Presidente do Comité Europeu para o Alargamento da OTAN para o Kosovo, Ucrânia, Bósnia, Áustria, Moldávia, Irlanda, Geórgia”, propõe uma espécie de “nova conferência de Berlim” e a divisão do Brasil, sob a alegação que somos um aliado da socialista e genocida Russia.  

 Isso mesmo, em pleno século XXI um desconhecido economista austríaco chamado Gunther Fehlinger foi às redes sociais e defendeu a divisão do Brasil em cinco paises, devido à sua parceria com a Rússia dentro do grupo BRICS. Lunático? Pode até ser, mas esse tipo de loucura alimenta o cocho do bolsonarismo, então precisamos falar sobre isso.

 Numa publicação no Twitter-X esse sujeito num apelo ao “povo do Brasil”, propòs a divisão do nosso pais e nos qualifica como um país aliado da socialista e genocida Russia. A divisão, segundo ele, seria necessária para a liberdade do país (ele deve ter feito curso com um finado astrologo e acreditar que a Terra é Plana).

 O tal “Presidente do Comité Europeu para o Alargamento da OTAN”, que eu não sei bem do que se trata, afirma que esta divisão do Brasil permitiria que estas novas nações se alinhassem com organizações internacionais como a OTAN, a OCDE e o Mercosul (o infeliz austriaco talvez não saiba, mas o Brasil é membro fundador do Mercosul e candidato à OCDE).

 O que está de fato atrás dessa estupidez? O jornalista Ebenezer Mensah nos dá uma boa pista. Ele escreveu uma ótima matéria no https://bnn.network/, na qual tenta decifrar o que ele chamou de “doutrina Fehlinger”, e os reais objetivos da desintegração das nações, como uma forma de punição pela inexistente “violação da ordem internacional baseada em regras da OTAN”; se for isso que o austriaco pensa, cabe à sua familia encaminhá-lo a um psiquiatra, pois a OTAN não estabelece regras para a ordem mundial, a organização é, na verdade, geradora de instabilidade global.  

 Não estou sendo leviano com a OTAN, basta que citemos alguns eventos recentes.  

 Em 1999, durante a guerra do Kosovo, a OTAN lançou um bombardeio de 78 dias na Iugoslávia, provocando uma séria crise humanitária.

 Em 2001 membros da OTAN se uniram e participaram ativamente da guerra no Afeganistão, liderada pelos EUA.

 Em 2003, os EUA mentiram sobre o Iraque possuir armas de destruição em massa, apenas para receber o apoio dos aliados da OTAN e iniciar mais uma lucrativa guerra.

 Em 2011, a OTAN abusou da autorização do Conselho de Segurança da ONU para lançar um ataque militar contra a Líbia.  

 São apenas alguns exemplos, mas a verdade é que os EUA e seus aliados da OTAN são os que mais geram instabilidade e conflitos em torno do mundo, e agora estão tentando repetir suas estratégias de expansão na Ásia e no Leste Europeu, o que, mais uma vez, pode resultar em muita confusão. O imperialismo não perdoa e em nome da democracia e liberdade invade, destrói, faz guerras, bombardeia, mata e depois faz filmes de viés revisionista.  

 Não podemos esquecer que o Brasil é membro fundador do Mercosul e está envolvido em negociações para ingressar na OCDE e por si só, estes esforços diplomáticos demonstram o compromisso do país em expandir as suas parcerias economicas e políticas globais em espaços democráticos.  

 Se eu encontrasse o austriaco eu diria a ele: “Você fala muita bobagem!”, afinal, o foco oficial da OTAN deveria estar na região do Atlântico Norte. Suas tendências expansionistas são causadoras de desastres como a criminosa invasão de Putin aos territórios separatistas da Ucrania.

 Os sócios da OTAN estão assanhados, tanto que a organização tentou estabelecer um escritório de ligação no Japão, ou seja, há indisfarçado objetivo em ampliar a sua presença para além do teatro europeu; tanto que estabeleceu parcerias com blocos regionais como a CEDEAO na África e a Organização dos Estados Americanos no Hemisfério Ocidental.  

 Esse austriaco, cuja relevância eu não sei qual é, me parece ser apenas mais um USA dick sucker, que vocaliza o descontentamento do Império com a crescente influência e importância dos BRICS e sua expansão, a qual é um desafio à decadente ordem global liderada pelos EUA e UE.

 O fato é que o protagonismo que o Brasil alcançou com Lula incomoda a ordem global decadente, pois traz ao debate discussões inconvenientes como a solução pacifica para conflitos, soberania, combate à fome e à miséria, parcerias globais e o papel de instituições multilaterais.

 Essas são as reflexões que submeto às criticas de quem de fato entenda de geopolitica.

 e.t. espero que o Itamaraty esteja atento e dê ao caso tratamento merecido.  

❗ Se você tem algum posicionamento a acrescentar nesta matéria ou alguma correção a fazer, entre em contato com redacao@brasil247.com.br.

Cortes 247

Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Participe da discussão

Acompanhe as
últimas notícias