No carnaval de 2025, a Acadêmicos do Tuiuti traz para a Marquês de Sapucaí um enredo potente, que resgata a história de Xica Manicongo, a primeira travesti documentada no Brasil. A paulista Erika Hilton dará vida a Xica na avenida, enquanto a trajetória da vereadora Benny Briolly segue como um dos pilares dessa narrativa. Como primeira mulher preta trans eleita e reeleita no estado do Rio de Janeiro, Briolly representa a continuidade da luta travesti e negra contra as opressões históricas que marcaram a vida de Xica.
Xica Manicongo e a Inquisição: Transgressão e Resistência
Xica Manicongo foi uma das vítimas da Santa Inquisição, fichada e criminalizada no século XVI por sua identidade de gênero e comportamento, num dos primeiros registros documentados de transfobia no Brasil. Sua existência desafiava as normas coloniais e religiosas impostas pela Coroa portuguesa e pela Igreja Católica, que reprimiam qualquer desvio da cisheteronormatividade. Essa história é abordada com profundidade por Luiz Mott no livro Novas Fronteiras LGBTI+, organizado pelos professores Renan Quinalha e Paulo Souto, obra na qual tive a honra de pensar a quarta capa.
A homenagem da Tuiuti reconta essa história silenciada, trazendo à tona o apagamento sistemático de corpos dissidentes ao longo da história. Ao mesmo tempo, reforça a ideia de que a resistência travesti e trans sempre existiu, do período colonial até os dias de hoje.
O Congo e as Diversidades de Gênero nas Culturas Africanas
A história de Xica está diretamente ligada ao Reino do Congo, de onde muitas pessoas escravizadas foram trazidas para o Brasil. Antes da colonização europeia, muitas culturas africanas reconheciam múltiplas formas de identidade de gênero. No Mali, os Dogon reconheciam os yasigine, homens que viviam como mulheres. Em várias sociedades centro-africanas, funções ritualísticas eram atribuídas a pessoas de gênero não conforme. Com a chegada dos colonizadores europeus, essas expressões de gênero foram reprimidas, substituídas pela moralidade cristã e binária imposta pela Igreja e pelos Estados coloniais.
Atualmente, a República do Congo não criminaliza explicitamente relações entre pessoas do mesmo sexo, mas a sociedade continua profundamente conservadora. Movimentos LGBTQIA+ locais ainda lutam contra a invisibilidade e o estigma.
Benny Briolly: A Luta Contínua das Travestis Negras
A escolha de Benny Briolly para representar Xica Manicongo em 2023 em Niterói-RJ, não foi por acaso. Primeira mulher preta trans eleita e reeleita no estado do Rio de Janeiro, Briolly simboliza a resistência política da população travesti e trans no Brasil. Sua trajetória dialoga com a luta de Xica Manicongo: ambas enfrentaram perseguições, apagamentos e tentativas de silenciamento, mas seguiram desafiando as estruturas de poder.
A Tuiuti e o Resgate Histórico
A Acadêmicos do Tuiuti mais uma vez se destaca ao transformar o carnaval em um palco de memória, denúncia e celebração da cultura afro-brasileira. Neon Cunha, Jonava Baby, Catia Tapety, Tathiane Araújo, Cris Stephany, Fernanda de Morais, Indianarae Siqueira, Sayonara Nogueira, Erika Hilton, Alana Vargas, Duda Salabert, Jacqueline Brasil, Megg Rayara, Cleonice, Eloas, Keilas e tantas outras que trazem a força de Xica Manicongo, como representante da luta travesti negra no presente, se encontram na avenida para lembrar que a história das travestis e trans no Brasil é, acima de tudo, uma história de resistência.
O Acidente com a Professora Dra. Megg Rayara durante os preparativos para o desfile, um incidente preocupante marcou a comunidade acadêmica e ativista. A professora Dra. Megg Rayara sofreu um acidente ao cair de um carro, o que gerou grande comoção e preocupação entre seus colegas e admiradores. Figura essencial na luta pelos direitos das pessoas trans e travestis, Megg Rayara tem sido uma voz ativa na academia e nos movimentos sociais. Felizmente, após o ocorrido, ela recebeu atendimento médico e está em tratamento, sem risco de vida. O incidente reforça a importância de garantir condições seguras para todas as pessoas que participam e contribuem para o carnaval, especialmente aquelas que historicamente enfrentam vulnerabilidades e desafios estruturais.
Foram por muitas mãos, braços, saltos e vozes que chegamos até aqui…Salve todas as forças!
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