247 – O conflito público entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro acrescentou um novo elemento de desgaste à pré-campanha presidencial do parlamentar e reforçou um dos principais desafios enfrentados pelo bolsonarismo desde 2018: a dificuldade de conquistar o eleitorado feminino. As informações são da Reuters, em reportagem assinada por Luciana Magalhães, Brendan O’Boyle e Ricardo Brito.
A crise ganhou novas proporções após Michelle deixar a presidência do PL Mulher, em meio à disputa pública com seus enteados. Em um vídeo que repercutiu amplamente nas redes sociais, ela afirmou ter sido “desrespeitada” e “maltratada” por Flávio Bolsonaro ao contestar sua participação nas decisões partidárias. A ex-primeira-dama também classificou a atitude do senador como uma “apunhalada nas costas”.
“Entendi que ele não queria meu apoio — ou que eu era insignificante —, então me recolhi. E assim continuo”, declarou Michelle.
A saída da principal liderança feminina do PL representa uma perda política significativa para Flávio Bolsonaro. Ao longo dos últimos anos, Michelle consolidou uma ampla rede de apoio entre mulheres conservadoras e evangélicas, tornando-se uma das principais interlocutoras do campo bolsonarista junto a esse segmento do eleitorado. Sua presença em eventos partidários e religiosos vinha sendo considerada estratégica para ampliar a aceitação da candidatura do senador.
Pesquisas mostram ampla vantagem de Lula entre as mulheres
O desgaste ocorre justamente quando as pesquisas indicam que o voto feminino continua sendo um dos principais obstáculos para a candidatura de Flávio Bolsonaro.
Segundo levantamento BTG Pactual/Nexus citado pela Reuters, em um eventual segundo turno o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece com 55% das intenções de voto entre as mulheres, contra 37% de Flávio Bolsonaro, uma vantagem de 18 pontos percentuais. Entre os homens, o cenário se inverte, com o senador registrando 49%, ante 42% de Lula.
No resultado geral, a pesquisa aponta Lula à frente, com 49%, contra 43% do senador.
Para o cientista político Rafael Favetti, ouvido pela Reuters, a disputa com Michelle pode ter consequências relevantes em uma eleição equilibrada.
“Em uma eleição muito disputada, qualquer variável faz preço”, afirmou.
Michelle era peça central da estratégia junto ao eleitorado feminino
Michelle Bolsonaro vinha desempenhando um papel considerado essencial na aproximação do bolsonarismo com as mulheres, especialmente entre o público evangélico. Sua atuação buscava suavizar a imagem do movimento político liderado por Jair Bolsonaro, marcada por sucessivas declarações controversas envolvendo mulheres ao longo dos últimos anos.
Segundo a Reuters, sua influência cresceu ainda mais depois que Jair Bolsonaro passou ao regime de prisão domiciliar, tornando Michelle uma das poucas pessoas com acesso direto ao ex-presidente.
Ao mesmo tempo, ela passou a ser apontada como possível candidata ao Senado pelo Distrito Federal e chegou a figurar em levantamentos como potencial candidata à Presidência.
Conflito familiar expõe divisões no bolsonarismo
De acordo com a reportagem, o rompimento entre Michelle e os filhos mais velhos de Jair Bolsonaro se intensificou desde que Flávio lançou sua pré-campanha presidencial, no fim do ano passado, tentando construir uma imagem mais moderada que a do pai.
Apesar da crise, Flávio procurou minimizar o conflito durante um encontro com lideranças femininas conservadoras realizado em Brasília.
“Respeito demais a Michelle e eu tenho convicção que a gente vai superar mais esse momento difícil e que ela vai estar caminhando junto com a gente”, declarou o senador.
Michelle foi convidada para participar da reunião, mas não compareceu.
Desgaste também aparece em nova pesquisa
O episódio também parece repercutir negativamente junto à opinião pública.
Segundo pesquisa Atlas/Bloomberg citada pela Reuters, 37,8% dos entrevistados consideram que a exposição do conflito entre Flávio e Michelle enfraquece muito sua candidatura presidencial. Outros 26,3% avaliam que o episódio enfraquece um pouco. Apenas 22,4% afirmam que o desentendimento não produz efeitos sobre a disputa eleitoral.
O levantamento reforça a avaliação de que a crise familiar ocorre em um momento delicado para a campanha do senador, especialmente diante da dificuldade histórica do bolsonarismo em ampliar sua aceitação entre o eleitorado feminino, segmento decisivo para o resultado da eleição presidencial.
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