Opinião

Mariana, como dói

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A tragédia de Mariana pede Drummond:


A montanha pulverizada

Chego à sacada e vejo a minha serra,
a serra de meu pai e meu avô,
de todos os Andrades que passaram
e passarão, a serra que não passa.
Era coisa dos índios e a tomamos
para enfeitar e presidir a vida
neste vale soturno onde a riqueza
maior é sua vista e contemplá-la
De longe nos revela o perfil grave.
A cada volta de caminho aponta
uma forma de ser, em ferro, eterna,
e sopra eternidade na fluência.
Esta manhã acordo e
não a encontro. Britada em bilhões de
lascas deslizando em correia transportadora
entupindo 150 vagões
no trem-monstro de 5 locomotivas
– o trem maior do mundo, tomem nota –
foge minha serra, vai
deixando no meu corpo e na paisagem
mísero pó de ferro e este não passa.
 
A tragédia de Mariana machuca como a de Itabira, Ouro Preto, Itabirito, Paracatu e outras cidades de Minas com morros descascados pelas gula mineral. As fotografias da lama correndo em Mariana, devastando a terra e matando pessoas, dói como o retrato de Itabira na parede do poeta. Leio que o estouro da barragem da mineração de ferro contaminará os rios e  esterlizará a terra que a lama de resíduos cobriu. Que os efeitos podem chegar ao Espírito Santo, o do mar que nunca tivemos. O governador Fernando Pimental anuncia que nunca houve antes em Minas tamanho desastre ambiental. A limpeza levará meses e custará muito dinheiro.  A emrpresa Samarco, responsável pela mineração, é uma joint-venture entre a Vale e a australiana BHP Billiton. Empresas ricas, empresas sólidas, empresas globais mas foram primitivas na prevenção, na segurança, na responsabilidade ambiental. Nem sirenes tocaram avisando a população do desastre repentino. Foram cenas de horror e medo.
 
Leio que existem em Minas 735 e que 42 não têm garantia de estabilidade mas vão continuar funcionando. Penso em Paracatu, antiga Vila de Santana de Paracatu do Príncipe, criada pelo Anhanguera em sua subida para Goiás buscando o ouro. De Paracatu veio tudo na minha região. Ao longo do Vale surgiram as outras vilas que hoje são cidades. Quando passo por lá, como na semana passada, voltando de Abadia dos Dourados e Coromandel, é inevitável contemplar a serra devastada onde hoje se minera o ouro industrialmente, à custa de mercúrio. E lá num canto da serra, a barragem, o lago brilhante que guarda os dejetos de mercúrio e outros materiais usados na extração do ouro que restou na terra onde dona Beja reinou.  Se aquilo um dia estourar, será uma tragédia bem maior que a de Mariana. 
 
Urge uma fiscalização destas barragens pelo poder público. Antes que haja mais dor.
 
 
  
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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