Por Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia
Setenta e duas e horas após uma investida contra instituições de um
Exército no qual, constitucionalmente, ocupa a função de
comandante-em-chefe, no terço final do mandato o isolamento tornou-se
o traço principal do governo Jair Bolsonaro.
Ao longo desta quarta-feira, num sempre tenebroso 31 de março,
assistiu-se a uma farsa dolorosa e inteiramente inútil do ponto de
vista de uma população covardemente entregue à pior pandemia dos
últimos 100 anos, vítima de um novo recorde diário de óbitos, 3950.
No capítulo final da jornada que consumou a grande derrota, Bolsonaro
promoveu a comandante do exército o mesmo general que três dias antes
corria o risco de ser punido por desafiar publicamente o negacionismo
oficial numa entrevista ao Correio Braziliense.
Insólita como nenhuma cena de nossa história recente, a posse do
general Paulo Sérgio Nogueira selou com ferro e fogo o momento trágico
que o país atravessa, nas mãos de um presidente incapaz de distinguir
as necessidades reais de um povo de 210 milhões de suas próprias
miserias ideológicas.
O general Paulo Sérgio construiu sua história militar em longos anos
de caserna, mas foi na aplicação dos protocolos da OMS no combate a
Covid-19 que conseguiu manter a letalidade num nível de 0,13%, contra
os inaceitáveis 2,5% no Brasil de Bolsonaro.
Quem conhece ambos diz que não seria possível encontrar dois oficiais
tão assemelhados como Paulo Sérgio e Edson Leal Pujol, o comandante do
Exército que era o primeiro alvo na investida de Bolsonaro. “Caiu
Pujol, subiu Pujol”, sublinha o professor Manoel Domingos Neto,
especialista em História Militar.
Manifestação do mesmo drama em outra parcela armada do Estado, alvo de
um projeto de cooptação do bolsonarismo, as Policiais Militares
lutaram até serem incluídas na lista de prioridades para vacinação,
sob ameaça de promoverem motins dentro de casa.
Personalidade que desperta interesse mundial pelo negacionismo,
Bolsonaro paga um preço cada vez mais alto pelo comportamento, que já
coloca em dúvida sua capacidade para sobreviver até o fim do mandato.
A curiosa reunião de seis assinaturas de possíveis presidenciáveis que
ontem divulgaram um “Manifesto pela Consciência Democrática”, sinaliza
uma primeira mudança nas conversas para 2022.
Desde já, setores à direita e na centro direita começam a reconhecer
que, num ambiente de colapso geral da ordem nascida em 2018, o
candidato Bolsonaro que pode se inviabilizar e, neste caso, será
preciso encontrar uma alternativa para impedir que uma possível
campanha de Luiz Inácio Lula da Silva seja um passeio.
Como observou o colunista Marcelo Coelho, um Bolsonaro muito fraco
pode se tornar um estimulo irresistível a seu próprio impeachment.
Alguma dúvida?
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