BAFEJO
Na penumbra da igreja se encaminhou ao confessionário. Ajoelhou-se, persignou-se e aguardou. Em seguida, ouviu lá de dentro:
– Prrrrrrrrrmmmm…
E a ventosidade profana se espalhou.
– Quais pecados gostaria de confessar para mim e para Deus? – perguntou o monsenhor.
BRINDE
Mais uma vítima degolada. E, agora, era número redondo: 20.
I.R. A PAGAR
O chute na cadeira, o empurrão na poltrona, o sacudão no cachorro, o soco na parede do lavabo, o arremesso do telefone contra a parede, o urro na janela, o tartamudeio na cama.
REPRIMENDA
– E como ele te tratava?
– Nunca foi bom padrasto.
– Grosseiro?
– Eu chupava o dedo, ele odiava.
– Te batia?
– Não, quando eu dormia passava bosta de galinha na minha mão.
PÂNICO
O medo de morrer piorava à noite. Rezava o pai-nosso, a salve rainha e se deitava com a roupa do corpo. Vai que chega o passamento e a pessoa está nua. Já seria começar desrespeitando o outro mundo.
POR QUE?
Era cunhada. Mas por que usava aquele shortinho?
DIREITOS AUTORAIS
O dinossauro que ainda estava lá foi procurado pelos donos da editora. Os advogados das partes não chegaram a um acordo sobre como poderiam remunerar o animal. Eram tantas citações à história original que ficava impossível estipular os direitos autorais. Depois de ouvir seu cliente, o advogado do lagarto pré-histórico declarou que buscariam instâncias mais altas. E a reunião na caverna foi encerrada.
RESPEITO
Sempre teve consideração pela gente. Elogiava, chamava atenção quando uma coisa era bem-feita. Adorava meu cafezinho, vivia pedindo suco de tamarindo gelado. Só não permitia que a gente almoçasse na mesa com eles. Na hora, dizia: meninas, já façam o pratinho de vocês para comer aí na cozinha.
NOTAS
O concunhado era de um partido, ela da oposição. Viviam às turras. Uma manhã, na Câmara, ele sentou-se numa cadeira à frente dela. Passou a fazer anotações numa folha de papel. Notou que a mulher, o pescoço de ave de rapina, espiava o que escrevia. Pegou da pena e grafou em letras garrafais: PUTA.
MALDIÇÃO
Vizinho como esse é maldição. É um ogro. Sabe gente que não bate com a sua química? A primeira vez que vi o sujeito já percebi. Não, esse não vai ter como aturar. Ele passava no corredor e me dava uma coisa ruim. Porque ele é um coisa ruim. E ainda tentava ser gentil comigo. Aquilo me dava mais nos nervos. Gentileza não combina com gente petulante. Até agora me pergunto como fui dar pra ele.
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