Opinião

Concisos

SANTA

Era uma tradição naquele bairro popular. Todo ano, em algum dia de dezembro, a casa número 127 aparecia engalanada por milhares de lâmpadas coloridas. E, no pequeno jardim, um Papai Noel, iluminado por fachos de luz, acenava para transeuntes, crianças e carros. Foi assim durante mais de uma década. Até a polícia descobrir que o colorido das luzes e o Santa Claus eram para avisar ao Cartel que o suprimento anual da droga já estava no imóvel.

LEITURA

Estava em casa à noite, recolhido ao quarto lendo Raízes do Brasil. Ouviu um ruído, como se unhas arranhassem o piso de madeira. Tirou os olhos do capítulo, ergueu o tronco e demorou para reconhecer o animal à sua frente. Após longos segundos, teve certeza de que se tratava de uma anta. Numa atitude surpreendente, o roedor disse a ele em alto e bom som:

– Boa noite.

Estremeceu-se por inteiro. E, com a voz tremelicosa, indagou:

– Quem é você?

A anta esboçou um riso sardônico e disse:

– Eu sou o Brasil.

DEIXA ESTAR

Ao acordar, não sentiu nada de diferente. No entanto, ao se acomodar à mesa para o café veio o desconforto. Por mais que se endireitasse na cadeira não conseguia achar uma posição cômoda. O mesmo desconforto continuou no banco do automóvel e à mesa do escritório. Após o almoço, antes de escovar os dentes, baixou as calças e mirou o traseiro no espelho. Estava com uma terceira nádega. Cismou o resto do dia. Até que, durante a madrugada, depois de muita reflexão, tomou a decisão: ia sentar sobre o problema.

IMORTALIDADE

O imortal da Academia de Letras faleceu. No momento da baldeação no purgatório, dirigiu-se a um anjo.

– Que esculhambação é essa? Onde já se viu imortal morrer?

– De que país é a sua Academia? – indagou o anjo.

– Brasil.

O anjo olhou para trás e gritou:

– Ô, Gabriel, outro brasileiro aqui. Faz o quê? A ABL já pagou a taxa de imortalidade?

O anjo Gabriel consultou o cadastro e informou que a ABL continuava em débito. O anjo da portaria então dirigiu-se ao acadêmico:

– É, senhor, enquanto não acertarem a pendência com a gente, imortal que morrer não tem direito à imortalidade.

O acadêmico, já estressado, urrou:

– E, quando eles pagarem, eu faço o quê: ressuscito?

Coçando uma das asas, o querubim disse:

– Aí teria que falar com o Machado de Assis, doutor…

NEOLOGISMO

– Você sabe com quem está falando? – disse, irritada, ao cliente a prostituta leitora de Joyce.

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Cortes 247

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