O candidato do PT esteve longe de uma atuação impecável — chegou a ser prolixo e dispersivo em determinadas ocasiões — e, na terceira e última parte, perdeu controle sobre o próprio tempo, permitindo que Bolsonaro fizesse uma fala de cinco minutos, sem interrupção nem intervalo.
A vantagem de Lula se explica pelo seu comportamento altivo nos dois primeiros blocos, enquanto Bolsonaro fazia movimentos desconexos para fugir de críticas bem encaixadas do adversário.
Um levantamento do instituto Quaest diz que Lula saiu-se melhor — 43% a 39% — no primeiro bloco, massacrou o adversário no segundo — 46% a 34% — e acabou oprimido no terceiro, quando perdeu por 51% a 39%, quando Bolsonaro teve direito a uma fala de 5 minutos.
Ao vetar qualquer toda menção à uma indecorosa referencia de Bolsonaro a garotas venezuelanas (“pintou um clima”), o ministro do TSE Alexandre Moraes estabeleceu uma censura prévia que evitou um provável nocaute moral num candidato que ganhou a medalha de ouro de hipocrisia quando se queixou que Lula tentava atingir aquilo que tem de mais “sagrado, defesa das famílias e das crianças”.
Como se acreditasse nas fake news que espalhou durante a covid-19, Bolsonaro repetiu afirmações típicas da escolinha da professora Damares de mentiras políticas ( “o Brasil foi um dos país que mais vacinou no mundo”).
Num gesto que expressa um isolamento político crescente, comprovado pela crescenta roda viva de adesões ao adversário, Bolsonaro tentou dar um clima de conversa de botequim ao encontro. Em determinado momento, aproximou-se de Lula no centro do palco, ensaiando o gesto de quem iria colocar colocar a mão em seu ombro, como se fossem amigos e cúmplices na catástrofe nacional que atinge 215 milhões de brasileiras e brasileiros.
Acabou repelido por uma reação rápida de Lula, própria de quem respeita a dor e o sofrimento que o bolsonarismo causou ao país.
É provavel que, nos próximos dias, o esvaziamento de Bolsonaro seja traduzido por novas adesões inesperadas a Lula. O apoio mais recente veio de João Amoêdo, do Partido Novo, um das siglas do neo-liberalismo chique, que até há pouco dava o braço a Bolsonaro.
Após o debate de ontem, outras adesões a Lula virão. É possível discutir sua importância na transferência de votos. Mas não há dúvida de que a proximidade com o bolsonarismo já prejudica quem apenas se importa com a própria reputação.
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