Opinião

Natal em condomínio aberto

Em nosso DNA vibram acordes da infância humana de um Jesus sem-teto.

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Na última curva do ano, e férias, o presépio sai da caixa. Os dias deste dezembro nublado e quente gestam este natal. À noite, as ruas com adereços coloridos, rebrilham espelhos e luzes na cidade. Nas periferias uma vaga esperança de flores baldias. 

Muitas famílias se assentam no chão e começam a cortar, colar, modelar e a montar o espaço imaginário de séculos em seus presépios. No canto da sala a árvore natalina conectada a mundos agrestes e imemoráveis da alma e solidões cotidianas. Para viver é preciso ter coragem de sonhar, ainda que sob risco de uma bala nas calçadas perdidas. A realidade chã persiste no presépio e na presença mística, mesmo nas quebradas. Em nosso DNA vibram acordes da infância humana de um Jesus sem-teto. 

Uma coisa é certa: o papai noel já está manjado. Presente barato é ofensa e o “feliz natal e boas festas” já vem formatado no celular, basta um clique. Nos tempos da I.A. tudo é tão óbvio e possível… e deveras enganoso.

O peru de 25 de dezembro ficou pequeno na baixela da 25 de março. Quem vai fatiar a nobre ave de peito suculento no país do dólar? Assim, certas proposições são inquestionáveis como as juras de natal do mercado financeiro, do sobe-sobe jurinho, sobe-sobe jurinho…

Tá, mas quem vem para o natal? Porque no ano passado…

Muitas famílias “convidam” um padre, rabino, pastor, líder espírita ou um pai de santo para a festa e, de graça, ouvir algumas palavras bonitas. Uma forma de garantir a paz do ambiente natalício. 

Sim, vem o filho que usa brincos e saias. Já chegou a filha, ah, essa menina, ela passa nudes. Quem vai esconder a pinga daquele tio porteiro, chi, ele vem? E aquele irmão do nono, ex-policial, que anda armado e atira em todo mundo, vem? O vinho é para esquecer dos antigos aborrecimentos e ter outros, depende da dose e do fígado.

A cidade viva que conhecemos pode ser apenas uma miniatura no natal piracicabano. Sob as torres iluminadas e outras obras de engenharia agressiva seremos distração para turistas, burrinhos de presépio. Presentes de grego, quatro torres assombrosas de noventa metros cada uma, com vias estranguladas e redes de água e esgoto empastelados, de campos cimentados, de bosques arrancados e muito mais calor e raios ultravioleta, derretendo…

Analogamente a O conto de Natal, de Dickens, o senhor Scrooge poderá ver das torres o Natal passado, abaixo. Invejar os antigos ribeirinhos sob o sopro da brisa e cheiro d’água e da terra úmida de ribeira, onde os indígenas catam gravetos, assam peixe. Servem-se em comum, cantam o samba, a catira e a capoeira ao redor do fogo.

Como será o Natal futuro, Sr. Scrooge?.. Condomínio fechado, no qual o pobre somente poderá ser figurante na Paixão de Cristo? Enquanto houver a questão Boyes, paira o mal-estar.

Lutemos pelos nossos bosques, pelas águas dos nossos rios, por melhores natais, pelos nossos símbolos e cultura e contra a morte anunciada. Viva o natal!

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Cortes 247

Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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