Coincidências não existem. Existem, isto sim, energias que sopram numa mesma direção, quando forças contrárias ao bem comum se impõem. Não por acaso, neste domingo ensolarado, quase Natal, Reinaldo Lima, o “Rei” e melhor centroavante de todos os tempos do Clube Atlético Mineiro, veio a público, através do 247, falar do cancelamento sofrido por ele durante a ditadura.
Justo na semana em que o professor Alysson Mascaro foi sumariamente banido do corpo docente da Universidade de São Paulo (USP), sem um processo límpido, que lhe reservasse o direito ao contraditório.
O resultado questionável, tomado por uma congregação em que 100 votam, mas apenas 33 estavam presentes e se pronunciaram, demonstra que passado e presente se unem desde sempre, quando o que está em jogo é banir os diferentes, os que se rebelam, os que se posicionam.
Reinaldo e Mascaro têm esse traço em comum. Ambos se colocaram na cena pública em defesa de uma causa, e essa causa não necessariamente fala aos dirigentes do Departamento de Direito da USP.
E, mais uma vez, não por coincidência, esse é o dia em que o país está nas ruas em defesa da democracia e contra acordos que nada têm de republicanos.
Embora tenha em suas fileiras de mestres e doutores nomes de projeção na defesa da democracia, como o professor Pedro Dallari, que presidiu a Comissão Nacional da Verdade, a USP — não é segredo para ninguém — mantinha uma agência de informação que fazia triagem ideológica e fornecia dados aos órgãos de segurança para perseguir alunos, professores e estudantes contrários à ditadura civil-militar.
O órgão que exercia o controle dentro da Universidade era a Assessoria Especial de Segurança e Informação (Aesi), criada em 1972, durante a gestão do reitor Miguel Reale (1969–1973).
Em consequência da “arapongagem” capitaneada pelo ex-reitor Miguel Reale — sim, o pai do jurista Miguel Reale Júnior —, a USP foi responsável pelas prisões e desaparecimentos de estudantes e professores dos seus quadros. Os casos mais emblemáticos são os da professora do Departamento de Química, Ana Rosa Kucinski, e de seu marido, Wilson Silva.
A Aesi produziu inúmeros informes, que eram compartilhados com as Forças Armadas, com o Serviço Nacional de Informação, com o Departamento Estadual de Ordem Política e Social (DOPS) e com as polícias.
“Em muitos casos, a vigilância resultou em prisão, morte, desaparecimento, privação de trabalho, proibição de matrícula e interrupção de pesquisa acadêmica na instituição”, contém o documento.
Os relatórios de “deduragem” produzidos pela USP, de acordo com o ex-reitor Hélio Guerra Vieira, foram queimados sob sua ordem.
Entre 1973 e 1979, foram produzidos 2.895 documentos, mais de 413 a cada ano, num fluxo superior a um informe por dia.
A pesquisa para a Comissão da Verdade da USP foi realizada a partir de 2013, quando a Comissão foi criada, sob a coordenação da professora Janice Theodoro da Silva.
É necessário voltar a esse passado para observar que a semente do autoritarismo — o mesmo que desestabilizou a carreira do jogador Reinaldo na década de 1970, reconhecido num pedido de perdão pelo Estado brasileiro na Comissão de Anistia, no dia 2 de dezembro — é a mesma que fez desaparecer a professora Ana Rosa Kucinski e que agora varre porta afora o professor Alysson Mascaro.
Tudo isso ocorre num processo obscuro que, segundo a defesa do docente, foi “marcado por violações graves e estruturais”.
A defesa afirmou ainda que a decisão da Faculdade de Direito da USP foi tomada na quinta-feira (11/12), mas ressaltou que não foi intimada oficialmente e que apresentará recurso no âmbito administrativo e por vias judiciais.
“A defesa do professor Alysson Mascaro vem a público esclarecer que o Processo Administrativo Disciplinar (PAD) instaurado contra ele constitui uma expressão de lawfare e de um procedimento de cartas marcadas, conduzido sem respeito às garantias mínimas do devido processo legal. Trata-se de um caso que jamais poderia gerar qualquer resultado válido e cuja solução definitiva será buscada no Poder Judiciário.”
Aqui é forçoso perguntar: qual é a real vocação da USP? A que tem em seus quadros da Faculdade de Direito o professor Pedro Dallari, um humanista que dirigiu de forma transparente e firme a Comissão Nacional da Verdade, ou a que demitiu Alysson Mascaro sem respeito às garantias mínimas do devido processo legal?
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