Opinião

140 Emendas Constitucionais depois, ainda temos um projeto de país?

Penso que o Brasil e nós, o povo, somos vítimas de uma conjunção de circunstâncias históricas que, aos trancos e barrancos, nos trouxeram até aqui.

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A Bela, minha neta, chegou em abril deste ano; ela é fonte de alegria para toda

família, mas também de preocupação, pois eu penso: que país a Bela encontrou?

Temos um projeto de país?

Para quem cedeu ao egoísmo e ao individualismo, características tão próprias do

liberalismo, essa é uma reflexão diletante, mas para nós aqui de casa essa questão é

fundamental.

Cada um de nós tem uma “solução” simples para questões complexas e as questões

postas acima não são simples.

Penso que o Brasil e nós, o povo, somos vítimas de uma conjunção de circunstâncias

históricas que, aos trancos e barrancos, nos trouxeram até aqui.

Acredito que Caio Prado Jr tem razão quando afirma que “para compreender o Brasil

contemporâneo precisamos ir às suas origens no período colonial”, especialmente o

século XIX.

Vejam. De 1500 a 1530 o país não mereceu atenção de Portugal.

De 1530 até a chegada da família real na colônia, em 1808, o que ocorria era

exploração “na veia”, genocídio dos povos originários, além do sequestro e

escravização dos irmãos africanos e nenhuma preocupação com os brasileiros ou com

o Brasil.

A família real aportou em Salvador em 22 de janeiro de 1808, após dois meses de

viagem; D. João, veio porque precisava garantir que Portugal continuasse

independente, vez que estava ameaçado de invasão por Napoleão.

A viagem foi financiada pela Inglaterra, por isso a imediata “abertura dos portos, a

todas as nações amigas de Portugal”; o comércio com a Inglaterra foi ampliado, o Rio

de Janeiro se tornou a capital do reino de Portugal e melhoramentos foram

introduzidos na cidade.

Foi aberta a Imprensa Régia; foram criadas instituições como a Real Academia Militar

(1810); Jardim Botânico (1808); Real Fábrica de Pólvora (1808); Banco do Brasil

(1808) e Laboratório Químico-Prático (1812), dentre tantos outros.

A Real Biblioteca de Portugal foi transferida integralmente de Lisboa para o Rio de

Janeiro, em 1810; o acervo de 60 mil volumes, era composto por livros, mapas,

manuscritos, estampas e medalhas e foi a origem da atual Biblioteca Nacional.

Para o entretenimento dos integrantes da corte, e não do povo brasileiro, foi fundado,

em 1813, o Real Teatro São João, onde atualmente se encontra o Teatro João

Caetano, portanto, a arte sofreu impacto com a transferência da corte.

Mas nem a família real, nem a corte pretendiam fincar raízes por aqui, por isso nem a

corte, nem D. João, preocuparam-se com Brasil; os olhares dos nobres portugueses

tinham um destino: a Europa, desejavam retornar a Portugal. e de fato voltaram, sem

terem legado um “projeto de país” ao Brasil.

Mas e as melhorias? O que foi criado ou instalado teve objetivo de dar

operacionalidade e conforto à corte, não para o povo brasileiro; o nosso país nunca foi

objeto de atenção e preocupação da corte, tanto que apenas em 1815 o Brasil foi

declarado parte do Reino Unido de Portugal e Algarves, deixando de ser uma colônia

e não foi uma decisão pensando no Brasil, a decisão foi necessária para atender os

interesses da coroa, pois os dirigentes europeus reunidos no Congresso de Viena não

reconheciam a autoridade de Dom João numa simples possessão ultramarina.

Pobre povo brasileiro que, depois do abandono das primeiras três décadas, manteve-

se juridicamente uma mera colônia até 1815… Trezentos e quinze anos sem um

projeto de país. E de muita exploração.

A família real voltou a Portugal em 1821, como consequência direta da Revolução do

Porto de 1820 e em 1822 ocorreu a independência; o Brasil surge como nação e tem

início a construção do ‘brasileiro’ como nacionalidade (bem como o processo de

endividamento crônico do Brasil – D. Pedro I tomou dinheiro emprestado para pagar

uma indenização aos portugueses -, um absurdo, pois o povo brasileiro e o país foram

explorados por mais de trezentos anos e ainda pagaram uma indenização os

exploradores e genocidas, um negócio de “filho para pai”).

E, o pior, como a independência atendeu os interesses da família real e da corte, o

Brasil manteve-se como uma monarquia, a única na América do Sul, sem projeto de

país, enquanto todo o continente declarava independência e instaurava repúblicas.

Fomos monarquia até 1889, quando foi proclamada provisoriamente a república, não

por um projeto de país, mas para atender o interesse da elite agrária. Proclamou-se a

república sem a participação do povo ou do partido republicano.

Veio a República Velha até 1930, o Estado Novo, Ditadura Vargas, fim da Era Vargas

(Getúlio Vargas foi deposto por um golpe militar e pela UDN – União Democrática

Nacional); as presidências de José Linhares (nomeado pelos golpistas de 1944),

Eurico Gaspar Dutra, Getúlio Vargas (que voltou à presidência pelo voto popular); Café

Filho (vice de Getúlio, que assumiu após o suicídio de Vargas); Carlos Luz (então

presidente da Câmara dos deputados, que assumiu em razão de alegada enfermidade

de Café Filho; ficou apenas três dias na presidência, pois dava sinais de que daria um

golpe, não permitindo que Juscelino Kubitschek assumisse; por isso o Ministro da

Guerra, General Lott, deu um golpe no golpe, no que ficou conhecido como golpe do

11 de novembro), assumiu Nereu Ramos por dois meses e vinte e um dias, apenas

guardou a cadeira para o eleito, Juscelino Kubitschek.

Golpes, golpe no golpe, golpes dentro do golpe, mas nada de um projeto de país,

apenas a elite defendendo seus interesses.

Uma ressalva: talvez o período Vargas, apesar de ser uma ditadura sanguinária, tenha

rascunhado um projeto de país e lançado as bases para o desenvolvimento industrial

capitalista a partir de 1930 e para o processo de acumulação"; outro rascunho é o

plano de metas de JK.

Depois de JK veio o insano e autoritário Jânio, que renunciou e, por conta disso, outro

golpe aconteceu. Por treze dias Ranieri Mazzilli foi o presidente, até que Jango

pudesse assumir a presidência, sem poderes, pois os golpistas inventaram um

parlamentarismo, que pouco depois foi derrotado pelo voto popular.

Outro golpe, o de 1964 e a ditadura, igualmente sanguinária, procurou modernizar o

Estado, mas após 21 anos legou à minha geração um país “quebrado”, “pendurado”

no FMI e um Estado ineficiente, um sistema de saúde falido, educação seletiva e

cultura elitizada.

Seguiu-se a Nova República e dela nasceu um projeto de país chamado Constituição

da República Federativa do Brasil.

Passados trinta e cinco anos da promulgação da nossa Constituição, no nosso projeto

de país, e 140 Emendas constitucionais depois (128 emendas regulares, há as seis

emendas aprovadas durante a revisão de 1994 e seis tratados internacionais sobre

direitos humanos), pergunto: que país a Bela encontrou? Temos um projeto de país?

A essas reflexões a Bela me levou, me ajudem a na resposta.

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Cortes 247

Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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