Opinião

A gente não quer só comida

“Que a cultura popular resista mesmo que estrangulada, que nosso grito se guarde para o dia em que tudo voltar ao normal, em que pudermos manifestar nossa inquietação de modo livre e criativo”, escreve o cartunista Miguel Paiva

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Por Miguel Paiva, para o Jornalistas pela Democracia 

Não bastam os episódios de violência, de amor às armas, de afeição pelas ditaduras e pelos torturadores. O que mais me deprime neste governo, apesar do temor do endurecimento, é a mediocridade. Estamos mergulhados num mar de mesmices, de negacionismos e de total desprezo à cultura e à educação que fico assustado.  Eles devem saber que a arte, a educação são bens adquiridos. Ninguém se alimenta literalmente de livros ou de teatro mas a cultura é fundamental para a vida, para o enriquecimento dela e para a felicidade.

Como diriam os Titãs na sua belíssima Comida:

A gente não quer só comida

A gente quer comida, diversão e arte

A gente não quer só comida

A gente quer saída para qualquer parte

A gente não quer só comida

A gente quer bebida, diversão, balé

A gente não quer só comida

A gente quer a vida como a vida quer

Os neoliberais e a direita radical não pensam assim. Nenhuma forma de criação cultural resiste aos propósitos deste governo. Por mais que se ache um secretário de cultura que aceite se identificar com o governo ele sucumbe, ele some diante da insignificância da sua missão. Daí vemos se sobressair pessoas como a Ministra Damares, um suprassumo de estupidez e reacionarismo, um ministro da educação como foi o Weintraub que usava as patas para educar e mesmo seu substituto que sumiu na sombra do governo. A cultura está entregue a um estertor dramático. Os filmes produzidos no país  tendem a sumir para sempre. A produção cultural ameaçada resiste através do ímpeto e da teimosia do seus artistas pela internet.  As escolas públicas, alvo de total abandono são preparadas para a indústria do ensino privado e para  a militarização escolar.

É a cultura da violência, da porrada, do deboche a única que prevalece. Corremos o risco de nos tornar um país tão árido que mesmo as festas populares tão importantes no Brasil acabarão sucumbindo a esta política do abandono. A pandemia está vindo a calhar para esta turma. Qualquer manifestação que nasça do povo originalmente será desprezada e desmontada. Cada vez mais Damares ocuparão postos- chave. Pastores evangélicos, religiosos radicais, conservadores conservados em formol, defensores da “família”, terraplanistas em todos os sentidos que preferem atacar uma menor violentada do que o próprio violentador acabam sendo a comissão de frente deste carnaval funesto que está por sair na avenida.  

Que a cultura popular resista mesmo que  estrangulada, que nosso grito se guarde para o dia em que tudo voltar ao normal, em que pudermos manifestar nossa inquietação de modo livre e criativo. Por enquanto só podemos sobreviver lamentando o estado a que chegamos. Mas eles não podem sobreviver. Não é justo nem pertinente. Como não acredito na justiça divina, que a justiça dos homens nos ajude a retomar o caminho das dúvidas, da inquietação, das questões, das contradições e da vida.

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Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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