Opinião

A traição a um 19 de Julho, o de 1979

Nepomuceno recorda a queda da ditadura de Anastacio Somoza pela Frente Sandinista de Libertação Nacional: ‘acabou uma era de espoliação, violência e corrupção’

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Por Eric Nepomuceno, para o 247

Em 1979 o verão estava agradável em Paris. Pouco antes das oito da noite da quarta-feira, 18 de julho, chegamos no apartamento de Ernesto Gonzáles Bermejo, imenso jornalista uruguaio exilado na França fazia uns oito anos. 

Ernesto, Martha e eu ficamos tomando um bom vinho enquanto esperávamos o outro convidado, Regis Debray, figura emblemática desde sua proximidade com o Che Guevara, mais de uma década antes, na Bolivia. O jantar de bife à milanesa, todo um luxo oferecido por um exilado numa das cidades mais caras da Europa, serviria para que Martha e eu conhecêssemos Debray.

Pouco depois da nossa chegada, ele telefonou. Pedia mil desculpas, mas não poderia vir. Estava embarcando às pressas para a Nicarágua. 

No final da tarde da quinta-feira 19 de julho de 1979 ficamos sabendo o motivo daquela viagem apressada: Debray queria estar na pequena e bela Nicarágua quando a Frente Sandinista de Libertação Nacional derrubasse a ditadura de Anastacio Somoza, um clã familiar que há mais de trinta e cinco anos sufocava o país. 

E foi isso que aconteceu naquele dia: com o avanço dos Sandinistas em Manágua e também em León, segunda cidade do país, acabou – ou parecia acabar – uma era de espoliação, violência e corrupção. 

Entre os muitos símbolos daquela vitória histórica havia uma moça magra, de boina e cabelos curtos, a estudante de medicina Dora Tellez, a guerrilheira que meses antes havia participado da tomada do Palácio Nacional como a “Comandante Dois”. A operação foi encabeçada pelo “Comandante Zero”, o guerrilheiro Eden Pastora. Conheci os dois na minha primeira viagem à Nicarágua sandinista, no final daquele 1979.  

Tudo isso ficou num tempo vergonhosamente traído. Passados 43 anos, nesta terça-feira 19 de julho Dora está presa em condições desumanas em “El Chipote”, o lúgubre cárcere especialmente escolhido pela dupla no poder, o ex guerrilheiro Daniel Ortega, também com um passado heróico que ele mesmo se encarregou de emporcalhar, e sua senhora esposa, Rosario Murillo, para confinar adversários de sua sede de poder.

Dora Tellez vive isolada, na mais profunda escuridão. Tudo que sua família sabe é que ela perdeu peso de maneira assustadora, apresenta uma palidez assombrosa mas, sabe-se lá como, mantém um olhar preciso, certeiro e agudo. Ela talvez seja o símbolo mais claro do tamanho da traição imunda cometida por Daniel Ortega.

Presa desde junho de 2021 junto com outros antigos guerrilheiros sandinistas históricos, além de opositores, jornalistas e todos – todos – os candidatos que se dispuseram a disputar eleições com Ortega, Dora sobrevive como um dos símbolos da dignidade ferida.

Um sem-fim de organismos internacionais de defesa dos direitos humanos denunciam sem parar as condições extremamente cruéis impostas aos adversários pelo casal ditatorial. 

São celas que ou não têm luz ou permanecem iluminadas as 24 horas do dia, sem atenção médica e praticamente sem alimentação. 

Um dos companheiros de martírio de Dora, o histórico ex-chanceler sandinista Victor Hugo Tinoco, morreu no cárcere. 

Já o general Hugo Torres, o “Comandante Um” no histórico ataque ao Palácio Nacional que libertou entre outros presos o próprio Daniel Ortega, foi despachado para um hospital, onde morreu depois de ter sofrido um colapso na cadeia por não ter recebido atenção médica para um grave problema que saúde que tinha ao ser preso. 

Ao longo desse ano de cadeia, só foram permitidas aos presos oito curtíssimas visitas familiares. Os 47 líderes oposicionistas detidos foram condenados a penas que vão de 8 a 14 anos de prisão. Condenados, aliás, em julgamentos nos quais não tiveram direito de defesa.

As mais relevantes figuras históricas do Sandinismo ou morreram, ou estão presas ou vivem no exílio.

A desenfreada e cruel perseguição do casal presidencial contra quem não se uniu aos seus planos de tomada absoluta do poder começou em 2018.

De lá para cá, o que vive a Nicarágua é uma tremenda, trágica volta aos piores tempos da dinastia dos Somoza.

E o mais infame dessa situação é ver a dupla Daniel Ortega-Rosario Murillo promovendo semelhante distorção, tamanha perversidade, falando em nome de uma Revolução que eles ajudaram a fazer, mas depois passaram a enterrar de maneira cada vez mais infame.

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