Opinião

Bolsonaro deixou militares calados e humilhados

“Os comandantes militares que garantiram um apoio compacto a Bolsonaro na eleição presidencial pagam o preço de uma ilusão política”, escreve Paulo Moreira Leite, articulista do 247 e da rede Jornalistas pela Democracia. “Imaginaram que seu papel seria recompensado por uma partilha de efetiva de poder no novo governo, quem sabe tutela. Em quatro meses,…

Bolsonaro deixou militares calados e humilhados
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Por Paulo Moreira Leite, para o Jornalistas pela Democracia – Como acontece em momentos decisivos, a reconstituição dos fatos mais relevantes ocorridos nos últimos dias parece indispensável para se tentar imaginar o futuro próximo. 

Atingido por um ataque ofensivo de Olavo de Carvalho, a resposta do general Villas Boas ao guru da Virgínia não foi apenas excêntrica. Revelou a impotência de uma autoridade que, sem forças para dar uma resposta à altura no plano político e até moral, preferiu refugiar-se numa postura artificial de superioridade intelectual, de quem não irá rebaixar-se para debater com um tipo desqualificado.

Instalado num cargo de segundo escalão do Gabinete de Segurança Institucional, o gesto de Villas Boas revela uma relação  entre os personagens. Olavo de Carvalho xinga, ofende, agride. O general faz referências laterais — Trotsky de direita — e comentários intelectualizados, chegando a ouvir uma réplica moralmente inaceitável, onde se define uma hierarquia de poder entre um militar que ocupou todos os degraus da hierarquia e um ex-jornalista, ex-astrólogo e filósofo não diplomado.

O guru não fez isso porque é um intelectual especialmente capaz. Mas porque o presidente — em silêncio nem sempre constrangido — quer assim. Apoia e autoriza.    

Embora tenha sido capaz de prestar tributo a atuação de Villas Boas  na campanha presidencial, quando o então Comandante do Exército chegou a disparar um tuíte pressionando o STF a impedir a candidatura de Lula, Bolsonaro até deu a impressão que o comandante teria uma posição intocável no governo. Uma espécie de grande eleitor secreto. Villas Boas chegou a ser reverenciado como se comandante ainda fosse.  

No momento em que os repórteres lhe perguntaram sobre o “bosta engomada”, o “cu que que não para de cagar o dia inteiro”, Bolsonaro nada tinha para criticar.

Para não deixar dúvidas, sublinhou o papel de Olavo de Carvalho naquela que sempre considerou a luta principal de seu governo: “seu trabalho contra a ideologia insana que matou milhões no mundo e retirou a liberdade de centenas de milhões é reconhecido por mim”. 

Como Villas Boas não é o único alvo do guru da Virgínia, o caso mostra que há algo mais largo e profundo em curso. Nas mesmas circunstâncias, Mourão encontra-se silenciado, acusado de valer-se da posição de vice para oferecer-se como uma “alternativa de bom senso” ao titular. Não há duas vozes, duas opiniões. Se Mourão portou-se como uma barreira de contenção em horas graves — como a Venezuela –, Bolsonaro não apenas alinha o país com as opções mais radicais contra Maduro, mas foi o primeiro a chamar a atenção para um eventual novo risco num velho vizinho,  Cristina Kirchner.

Idem para o general Santos Cruz. Em nome daquilo que lhe parecia a defesa da unidade do governo, preocupação compatível com a posição que ocupa, teve a ousadia de pensar em controlar a guerra nas redes sociais e se tornou a bola da vez.   

O processo em curso está cada vez menos nebuloso. Os  comandantes militares que conduziram as Forças Armadas ao longo dos governos Lula e Dilma até nossos dias pagam o preço de uma ilusão política, que eles assumiram e passaram adiante.

Imaginaram que o apoio compacto ao candidato Bolsonaro, com um fundo ideológico que o professor Eduardo Costa Pinto sublinhou com clareza no texto “Bolsonaro e os Quarteis: a loucura como método” seria recompensado por uma partilha efetiva do poder depois da posse. Quem sabe tutela.

Portavam-se como irmãos mais velhos, aqueles que, mesmo sem dar palmadas nos mais jovens, tem direito a falar grosso nas horas difíceis — e piscar o olho quando o caçula mostra que não entendeu direito a lição de casa.  

Em quatro meses de governo, Olavo de Carvalho ajudou Bolsonaro a colocar todos em seu devido lugar. Não estão no governo para mandar, mas para obedecer. Se for necessário, calados e humilhados.

Qualquer que seja o fundamento econômico, o  anunciado corte de 43% em seu orçamento, jamais visto nos governos do “marxismo cultural” e do “politicamente correto” de Lula e Dilma, é uma nova demonstração de desprestígio dos comandantes militares. 

O fato do corte ter sido anunciado ao lado de Paulo Guedes, o ministro da Economia que os comandantes respaldaram em todas as circunstâncias — inclusive garantindo um tratamento especial na Previdência –, não ajuda qualquer tentativa de questionamento, mesmo disciplinada. É o preço a pagar. 

Alguma dúvida? 

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