Opinião

Dívidas de sangue

“Um paradoxo que persiste, os contratos não podem ferir os direitos humanos”

Luigi Mangione comparece a audiência em tribunal na Pensilvânia - 10/12/2024
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O triste e notório caso de Brian Thompson, diretor executivo da seguradora de saúde norte-americana UnitedHealthcare. Ele foi executado ao sair do hotel de luxo Hilton Midtown, em Nova York.

O atirador deixou escrito em uma bala recuperada as palavras “deny” e “delay”, ou seja, “negar” e “atrasar” — termos burocráticos usados no setor de seguros de saúde para justificar a negativa de cobertura de tratamentos. No caso, o atirador, Luigi Mangione, sofria de dores crônicas nas costas devido a pinos e parafusos — talvez por uma cirurgia malfeita — que atrapalhavam sua vida diária e, ao que tudo indica, o enraiveceram contra o setor de seguros de saúde.

Na peça O Mercador de Veneza, o agiota faz um contrato leonino: se a dívida não fosse paga, seria cobrada em 454 gramas da carne do devedor. Contudo, havia um detalhe: ao se retirar o couro do inadimplente, o sangue viria à tona, aumentando o peso além do estipulado e, assim, ferindo o próprio contrato. Um paradoxo que persiste até hoje: os contratos não podem violar os direitos humanos ou a Constituição do país — no caso, Veneza.

Nas redes sociais, as condolências ao diretor Brian Thompson receberam 62 mil curtidas, das quais 57 mil eram reações de riso, e não de lágrimas. Dias depois, ainda circulavam depoimentos e protestos contra a empresa. Muitos relataram seus próprios casos, formando um coro indignado contra a seguradora. Não faltaram comentários irônicos e trocadilhos, como: “Infelizmente, minhas condolências estão fora da rede” ou “Pensamentos e franquias para a família”. Pode parecer mórbido, mas entre tantas indignações dos americanos, fica evidente que a questão é crucial no país. A Sociedade Americana dos Anestesiologistas (ASA) denunciou uma seguradora por não cobrir a duração completa da anestesia para procedimentos cirúrgicos.

Quase um terço dos americanos acaba na rua da amargura, dormindo no carro, devido a tratamentos não cobertos pelos planos e à falta de atendimento gratuito ou mais acessível. Os que podem, buscam socorro no antigo quintal, Cuba. Que ironia: tratam-se no sistema de saúde universal e solidário criado sob El Comandante. Se a ilha tivesse sido transformada apenas em um paraíso de cassinos e plantações de cana-de-açúcar, como antes da revolução de Che Guevara, esse sistema de saúde não existiria. Até o Obamacare — assistência médica voltada para pessoas pobres e cidadãos acima dos 65 anos — sofreu restrições. Com Trump, o governo se eximiu da obrigação de subsidiar a assistência médica, deixando idosos e pobres à própria sorte. Enquanto isso, na Riviera do Oriente, entre as casas luxuosas de Trump, o Estado de Israel destruiu todos os hospitais.

Por fim, caro público amigo e saudável, estamos no Brasil, onde o SUS foi reabilitado pela pandemia. Muitos políticos e economistas que antes defendiam a privatização do Sistema Único de Saúde tiveram que “lavar a boca” para falar de nosso sistema universal e solidário. Aqui, se um motoqueiro se acidenta, chama-se o SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) e ele é encaminhado para a UPA (Unidade de Pronto Atendimento). Mas, nos Estados Unidos, um motoqueiro acidentado sequer pode desmaiar de dor; ele grita para que ninguém o socorra, pois teme os altos preços dos hospitais e dos planos de saúde.

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