Opinião

E o Oscar vai para: o colunista em vertigem

“Desta vez ficou flagrante a dificuldade em lidar com uma dura realidade. A história do Brasil vai estar em discussão em todo o mundo. E não na versão que foi distribuída para uso doméstico, a de que um mar de corrupção subiu a rampa, tragou a presidente, que num deslize de pedaladas (farsescas e fabricadas)…

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Por Denise Assis, para o Jornalistas pela Democracia – A indicação do filme “Democracia em Vertigem”, da cineasta Petra Costa, para concorrer ao Oscar, marca também o dia em que o colunista/porta-voz assoviou, olhou para cima e deu um salto para além da realidade. Isto, depois de fazer uma verdadeira ginástica mental para falar da honraria, sem passar pelo fosso da história em que o país foi jogado – sem dúvida com uma generosa ajuda da mídia, que tratou de reverberar à estridência, os “vazamentos” daquela dupla (de procurador+juiz), todos politicamente calculados para se chegar ao desfecho demonstrado pelo filme. O impeachment da presidenta Dilma.

Assumindo o papel de narradora e personagem, Petra se coloca como uma expectadora/testemunha de uma história que se desenrola no palco do poder: a capital do país. Ali, penetra por corredores, tem acesso a personalidades e imagens que a outros não foi dado o privilégio de obter. Ao contrário de Maria Augusta Ramos, que no seu brilhante “O Processo” (2018), fez e colocou nas telas um filme no calor da hora, em que o roteiro ia sendo dado pelos acontecimentos, “a quente”, Petra pôde esperar o fogo virar brasas, e assim caminhar sobre os acontecimentos, com a emoção modulada. 

A cineasta coloca o espectador como figura privilegiada, na primeira fila de uma tragédia, traduzida nas cenas em que o povo perde. O país perde. O sistema constitucional é corrompido. Inegavelmente estamos falando de 2016, e não tem como, por mais que se distorça a realidade, para haver como falar da indicação do filme em um jornal que nunca, jamais, em tempo algum – quem sabe daqui a mais 40 anos – admitiu que aconteceu o que aconteceu: um golpe. 

Desta forma, beira o ridículo o medo de que o Oscar venha para o Brasil ironicamente a bordo de uma história em que a “mocinha” é a democracia, a luta da esquerda, e Dilma, a quem a direita, também com forte dose de ironia e sadismo, na reta final do julgamento do impeachment, denominou de “Querida”.

Tentar trazer a possibilidade da vitória do filme de Petra para o campo da birra que o mundo tem por Bolsonaro, pelo seu desprezo à Amazônia e à sua preservação, é o mesmo que jogar areia nos olhos dos leitores. É pular toda a dor de uma significativa parcela da população que teve a sua vontade expressa, pelo voto, interrompida. Postar-se ao lado do atual secretário de Cultura, Roberto Alvim, é fazer eco com a ignorância. Espumando o seu despeito, o secretário disse que melhor seria que o filme “concorresse à categoria de ficção”. A mesma fala feita pelo PSDB de Fernando Henrique, a quem esta mesma mídia presta vassalagem. 

Desta vez ficou flagrante a dificuldade em lidar com uma dura realidade. A história do Brasil vai estar em discussão em todo o mundo. E não na versão que foi distribuída para uso doméstico, a de que um mar de corrupção subiu a rampa, tragou a presidente, que num deslize de pedaladas (farsescas e fabricadas) caiu do cargo. Desta vez, numa noite em que os olhos da maioria dos países estarão grudados na TV, lá estará estampada – para perder ou para trazer a estatueta para o solo brasileiro – as imagens da desconstrução do Brasil. 

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Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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