Sempre que ocorre um episódio estarrecedor como o de ontem, no Rio de Janeiro – que foi sem dúvida o mais grave dos anos recentes – as soluções são invariavelmente as mesmas.
As autoridades prometem uma guerra sem tréguas contra os bandidos, polícia na rua, aumentar as penas, juram que dessa vez serão implacáveis, e vão exterminar esses bandos nocivos, violentos e corruptos.
A sequência também é conhecida. Outros bandidos já estão e serão caçados, assassinados, presos. O crime será federal e não mais estadual. Os bandidos irão a prisões de segurança máxima, vão comer o pão que o diabo amassou.
As promessas se viabilizam. Os chefes são presos, assassinados. E a população respira aliviada.
No entanto, surgem os sucessores dos bandidos presos e mortos e a roda viva recomeça. Bandidos matam policiais e civis, queimam ônibus, policiais matam e prendem bandidos.
Mas o problema central nunca é abordado. Porque as autoridades não atuam sobre a raíz do problema. Não tiram das mãos dos bandidos o que eles têm de mais precioso para vender: as drogas.
Em 1920, os puritanos dos Estados Unidos, decidiram que o grande problema nacional era a embriaguez. A solução logo foi encontrada: vamos proibir a fabricação, a distribuição e o consumo do álcool e seremos todos felizes. O país será salvo. E daí em frente viveremos num paraíso na Terra.
Só que a consequência não foi o fim dos bêbados e sim o começo da máfia. O uísque, o gim, o conhaque, a vodka, o rum etc, banidos pelas autoridades, passaram a ser controlados, clandestinamente, é claro, pela máfia.
Os cidadãos não pararam de beber, passaram a beber escondido. E os preços, é claro, se multiplicaram, pois tudo que é proibido fica mais caro. E a máfia (ou as máfias) encheram seus cofres, e viabilizaram a expansão de seus negócios. Os mafiosos compraram cassinos, arranha-céus, o diabo a quatro.
Qual foi a solução encontrada pelas autoridades? Guerra às máfias! Vamos destruir todos seus depósitos, vamos matá-los todos, serão presos, condenados à cadeira elétrica, exterminados como ratos.
A polícia matava mafiosos, quebravam milhares de garrafas de uísque ao vivo, para todo mundo ver, os mafiosos corrompiam políticos e matavam policiais, a indústria cinematográfica fazia filmes sobre os conflitos, mas a máfia continuava mais firme do que nunca.
Até que alguém teve a brilhante ideia, em 1933, de anular a Lei Seca, que estava na constituição. E a máfia acabou. Embora Hollywood não tenha abandonado o tema que rendia altas bilheterias.
Não sei quando será, mas talvez algum dia, aqui no Brasil, alguém vai ter a brilhante sacada: vamos tirar as drogas do controle dos bandidos. Vamos liberar as drogas. Diga-se que maconha nem é droga, é uma planta. Só é droga o que é manipulado em laboratório, como a cocaína, por exemplo.
Tal como ocorreu durante a Lei Seca nos Estados Unidos, a maconha e a cocaína continuam sendo consumidos avidamente pelos brasileiros. Mas escondido. No escurinho dos apartamentos. Nos escritórios depois do expediente.
Tanto o álcool como as drogas fazem parte da história da humanidade, são inerentes ao ser humano. Não adianta proibir. É como proibir que as pessoas se amem.
Quando forem legalizadas em nosso país – como já aconteceu no Uruguai e em tantos e tantos países – os bandidos ficarão sem seu principal produto para vender, aquele que sempre tem um vasto exército de consumidores. Tal como o álcool, sabe-se, as drogas viciam. E sem seu principal produto, tendem a desaparecer, ou, ao menos, a perder sua principal fonte de riqueza, que possibilita comprar armas poderosas, corromper as autoridades, e expandir seus negócios.
Não é minha intenção fazer apologia das drogas. Não acho que as pessoas ficam melhores (ou piores) se fumam maconha ou aspiram cocaína.
Na hora a sensação é muito boa, depois vem a ressaca (como ao consumir álcool), as crises de abstinência, a irresistível necessidade de tomar mais um copo, fumar mais um, cheirar mais uma fileirinha. No caso da cocaína, além de outros efeitos nocivos, o nariz fica em petição de miséria.
Claro que é um problema, mas trata-se de reduzir os danos.
O que é melhor: os bandidos continuarem monopolizando uma planta que além de ser fumada é matéria prima para um sem número de produtos, de medicamentos a peças de vestuário, que podem gerar empregos e aumentar o PIB (no caso da maconha) e assim continuarem barbarizando, corrompendo, matando, enriquecendo ou os adultos que optaram por consumir maconha ou cocaína ou outros estimulantes ou calmantes (como a maconha) tentarem controlar seu consumo?
Já está provado que o consumo não aumentou nos países que liberaram as drogas; diminuiu a violência.
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