Opinião

Entre o Carnaval e a Casa Branca, Lula testa os limites da cautela política

Em 2026, mais do que carisma ou memória afetiva, a reeleição será decidida pela soma de prudência, estratégia e entregas reais, dentro e fora do país

Luiz Inácio Lula da Silva
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Entre o desfile da Acadêmicos de Niterói, com o enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, e o encontro de março no Salão Oval da Casa Branca, o presidente terá de tomar três decisões importantes para sua campanha.

A primeira diz respeito à presença, ou não, do casal presidencial na Marquês de Sapucaí. Caso decida assistir ao desfile, Lula e Janja ficariam discretamente em um camarote ou cairiam no samba no meio da avenida?

A escola chegou a convidar Janja para ocupar o topo de um dos carros alegóricos, convite prontamente desaconselhado pelo jurídico da Presidência. A avaliação é de que a oposição aguarda qualquer deslize para acionar a Justiça Eleitoral, alegando uso indevido de um dos maiores eventos do país como campanha eleitoral antecipada.

O bom senso recomenda cautela. Por se tratar de ano eleitoral, Lula faria melhor se assistisse, como milhões de brasileiros, ao desfile da Acadêmicos de Niterói pela televisão.

A segunda tarefa do presidente é ainda mais delicada: arrancar de Fernando Haddad, durante a viagem que farão à Índia e à Coreia do Sul, o compromisso de aceitar a candidatura do PT ao governo de São Paulo. Haddad segue irredutível. Afirma que prefere ajudar na coordenação da campanha nacional. As recusas foram tantas que recuar agora daria munição aos adversários, que passariam a retratá-lo como mero “pau mandado” de Lula.

Nos bastidores do PT, corre a versão de que Haddad aceitaria disputar uma vaga no Senado por São Paulo. Nesse cenário, a outra vaga ficaria com Marina Silva, que estaria disposta a retornar ao partido. Já a ministra Simone Tebet entraria na disputa pelo governo paulista, mas, para isso, teria de trocar o MDB pelo PSB de Geraldo Alckmin.

Definida a chapa no maior colégio eleitoral do país, Lula seguiria para Washington, onde o aguarda um encontro cercado de expectativas e cautela com Donald Trump.

A assessoria diplomática trabalha para preparar o presidente tanto para um encontro respeitoso e “tranquilo” quanto para a possibilidade de falas destemperadas e hostis por parte do presidente estadunidense. Em seu segundo mandato, Trump já protagonizou, dentro da Casa Branca, cenas pouco diplomáticas com chefes de Estado, como fez com Volodymyr Zelensky, da Ucrânia, e Cyril Ramaphosa, da África do Sul.

Lula tem larga experiência no convívio com presidentes dos Estados Unidos. Relacionou-se bem tanto com o republicano George W. Bush quanto com os democratas Barack Obama e Joe Biden. Quem não se lembra da manifestação espontânea de Obama, numa conversa informal durante a cúpula do G20, em abril de 2009: “Esse é o cara! Adoro esse cara (Lula), que é o político mais popular do planeta”.

Por essa experiência, Lula sabe que não deve esperar grandes afagos de Trump. Quer apenas sair de Washington com a redução nas tarifas que ainda perduram contra o Brasil. Cerca de um quarto das exportações brasileiras ainda enfrentam tarifas elevadas impostas pelos EUA. Se conseguir a redução de parte dessas tarifas, já será uma vitória e um trunfo importante para sua reeleição.

Em 2026, mais do que carisma ou memória afetiva, a reeleição será decidida pela soma de prudência, estratégia e entregas reais, dentro e fora do país.

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