Há meio século na profissão, estou convencido de que o depoimento de Luiz Inácio Lula da Silva à equipe de cinco jornalistas do Brasil 247 é um sinal raro na quase desconhecida história do jornalismo brasileiro.
É preciso refletir sobre a duradoura e maligna herança deixada pelo regime militar de 1964 para avaliar seu significado mais profundo.
Desde um golpe de Estado que se prolongou por 21 anos, produzindo marcas de violência e covardia em todos os aspectos da vida nacional — com um destaque particular nas relações entre jornalismo e poder –, poucas vezes se viu um diálogo tão aberto e direto entre partes essenciais a qualquer sistema democrático.
Não estamos falando de um veículo que pode ser comparado a uma máquina economica, que gera receitas publicitárias imensas e possui uma circulação na escala dos campeões de audiência, servindo aos poderosos de turno.
O Brasil 247 pode ser classificado como herdeiro — mais musculoso, talvez — da imprensa de resistência ao regime militar, então chamada “alternativa”, que cumpria uma função indispensável na vida política do período.
Suas publicações eram nobres, igualmente. Asseguravam a sobrevivência do espírito crítico na sociedade brasileira. Denunciavam o arrocho nos salários dos trabalhadores e na renda da maioria da da população, alimentando um ponto de vista sufocado pela censura, pela chantagem econômica e pela brutalidade policial.
Ao receber a equipe de um veículo que é parte relevante deste universo, assumindo um ponto de vista diferenciado em relação aos veículos da mídia convencional, Lula deixou claro que reconhece sua importância para a compreensão do país e das iniciativas de seu governo.
Antes chamada de “alternativa”, sua atitude mostra que essa imprensa é tratada como parte essencial nas disputas de opinião e informação que marcam o cotidiano de qualquer país.
Basta recordar a presença de imensos monopólios de mídia na selva ideológica brasileira para reconhecer o valor desta iniciativa.
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