A aversão legítima e necessária de todos os democratas ao bolsonarismo criou uma armadilha para o campo progressista. Agora mesmo, há o risco de que a esquerda assuma o discurso neoliberal apenas porque tudo que Bolsonaro faz deve estar sempre errado.
Falo do caso Petrobrás. No Twitter muitas pessoas do campo progressista, muito bem intencionadas, criticam o desastre que teria sido causado pelo Bolsonaro ao intervir na estatal e segurar o aumento do diesel.
A evidência do desastre seria a queda de R$ 32 bilhões no valor de mercado da Petrobras em apenas um dia, como que se a queda das ações fosse o melhor parâmetro para avaliar a gestão de uma empresa que tem óbvia finalidade pública.
Se Bolsonaro errou ao suspender o aumento, devemos concluir, portanto, que a política entreguista do Paulo Guedes e do Roberto Castello Branco está correta, certo? E aí, se Bolsonaro recuar e liberar o aumento, valorizando as ações, todos nós deveremos aplaudi-lo?
O fato real é outro: a economia está afundando, com queda de 5.2% do consumo em janeiro e fevereiro. Um dos motivos é a disparada da inflação e dos preços dos combustíveis, com diminuição da renda do trabalho. Por isso mesmo, o governo suspendeu o aumento.
Para Bolsonaro, que se vendeu como mito neoliberal, não há saída fácil. Se decidir atenuar a recessão, apanhará do mercado. Se seguir o modelo fracassado de Paulo Guedes, aprofundará a crise econômica.
O que não faz sentido é o campo progressista assumir a defesa da política econômica de Paulo Guedes. A menos que seja uma estratégia para que Bolsonaro nos ouça, aprofunde a recessão e se torne ainda mais impopular.
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