Pedro Benedito Maciel Neto
O jornal da família Mesquita, sempre coerente com sua ideologia servil aos interesses mais atrasados no Brasil, deu início a uma falsa polêmica.
Na sanha de criticar Lula e o governo – um governo que, infelizmente, está bem longe de ser de esquerda -, o Estadão tenta confrontar Lula e Boric, sejamos cordatos, o presidente do Chile, Gabriel Boric, não é o aggiornamento da esquerda latino-americana e Lula não é a obsolescenza, pois a esquerda é sempre moderna, plural e, ao contrário da sempre chata direita, convive com a divergência e com a pluralidade, sempre com respeito.
É verdade que tenho escrito por aqui que Lula representa a transição, não o futuro, o que não significa que ele seja ultrapassado ou obsoleto, muito pelo contrário, pois, se Lula não tem poderes divinos, semelhantes aos do demiurgo – que, para quem não lembra, era princípio organizador do universo que, sem criar de fato a realidade, modela e organiza a matéria caótica preexistente através da imitação de modelos eternos e perfeitos -, mas tem muito a dizer ao Brasil e ao mundo. Quando o Estadão diz que “Lula não gosta de novidades. Prefere aferrar-se ao que conhece, à sua antediluviana visão de mundo”, o jornal flerta com a vileza, própria daqueles que atacam o argumentador ao invés de combater o argumento. No tema “Venezuela e Nicarágua” quem acerta é Pepe Mujica, ex-presidente uruguaio, que declarou com todas as letras que o regime venezuelano, “é uma ditadura, sim”, mas dizer que Lula não gosta de novidades é, como dito acima, vil.
Eu concordo com Pepe Mujica, a Venezuela é uma ditadura, mas quem seu eu, não é?
E, ao contrário de Pepe, que é ex-presidente, Lula é presidente e tem responsabilidades, deve cumprir a nossa constituição, que dispõe a integração latino-americana como um imperativo, além de ser sua obrigação operar para receber o que Maduro nos deve e, por fim, como líder e referência que é, Lula deve colaborar para que a democracia seja restaurada no país de Símon Bolivar.
Contudo, sugerir como fez o Estadão, que o filho da Dona Lindu faz parte de grupos que se reconhecem e esquerda, mas ainda não perceberam que os tempos e movimentos da sociedade contemporânea estão sempre em transformação é igualmente má-fé, Lula vive a mudança é coautor da mudança, fala sobre ela e a pratica.
Ou será que o Estadão imagina que Lula, Jacó Bittar, Djalma Bom, Olivio Dutra, Apolonio de Carvalho, Mário Pedrosa, Antônio Candido ou Sérgio Buarque de Hollanda naquele fevereiro de 1980, alimentaram-se de dogmas e fecharam os olhos à realidade para fundar um partido completamente original, um partido que escandalizou burocratas mofados que, escondidos na historicidade e na dialética, na realidade a negavam e ainda negam?
Apenas alguém com distorcida visão da realidade escreveria uma bobagem como a contida no “O aggiornamento de Boric e a obsolescenza de Lula”, espero que não tenha sido Roberto Crissiuma Mesquita, mas de qualquer forma é responsabilidade dele.Estadão, pense: ao longo dos últimos 150 anos é a esquerda que consegue compreender o poder criativo e criador da sociedade, fonte de inspiração das ações dos verdadeiros democratas, ademais, quem tem histórico de apoio a golpes e ditaduras não é Lula.O Estadão deveria contar para os seus leitores que é fundamental a retomada do diálogo entre Brasil e Venezuela, visando promover cooperação científica, tecnológica e comercial; inegável a importância das relações diplomáticas – interrompidas no governo Bolsonaro -, trata-se de necessária normalização, pois, ao fechar as portas à Venezuela dificultou-se questões diplomáticas e comerciais, afinal, por lá há grandes reservas de petróleo e gás, além de forte indústria petroquímica e agricultura; a Venezuela representa uma parceria comercial interessante para o Brasil; é uma parceria estratégica, inclusive para combater o desmatamento, tráfico de drogas e a mineração ilegal na Amazônia; compreendo que é comum uma democracia, relacionar-se com países autoritários, pois, os interesses comerciais do país devem ser observados e respeitados.
O Estadão deveria ter informado aos seus leitores que grande parte da oposição à ditadura de Maduro é composta uma elite egoísta, simpática a ditaduras, ressentida, colonizada e irresponsável, que quer privatizar a PDVSA (petróleo) e que para isso sabota economicamente a Venezuela, e aplaude o abismo em que hoje se encontra.
Estou tranquilo para fazer essas ressalvas porque já escrevi que Lula não deveria ter oferecido tamanho prestígio a um chefe de estado que acusado de violação aos Direitos Humanos.
Caso o Estadão quisesse mesmo ser honesto poderia alertar que a esquerda democrática não pode relativizar o que acontece na Venezuela, nem em nenhuma das 49 ditaduras que existem no mundo, sendo 43 delas de direita.
Ou a indignação da família Mesquita é seletiva e ideológica?
Essas são as reflexões.
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