O turista brasileiro que desembarca em Buenos Aires continua deslumbrado com a cidade. Os cafés, os bares, os restaurantes, as livrarias, a possibilidade de caminhar quilômetros e quilômetros nessa terra plana e planejada, de percorrer parques e praças. E de perceber, pessoalmente, como o brasileiro é bem recebido. Essa atmosfera não mudou com a chegada de Javier Milei à Presidência. Milei continua com sua cruzada contra o socialismo, o comunismo e a esquerda em geral. E a poucos dias de completar seis meses de governo, no dia dez de junho, está realizando, nesta semana, sua sétima viagem internacional – a quarta para os Estados Unidos. Em quase todas as viagens ao exterior (nenhuma para a América Latina), Milei pegou o avião para participar de encontros da extrema-direita. Ele busca ser a referência nesta esfera ideológica que reúne políticos dos Estados Unidos, da Espanha, da Itália, de Israel e outros.
Mas nesta semana, em uma prova de que a relação com o Brasil flui em vários âmbitos, apesar daqueles ataques de Milei contra o presidente Lula, a Argentina solicitou a importação urgente de gás à Petrobras para suprir a demanda diante do frio inesperado no mês de maio. O pedido foi atendido, sem afetar o abastecimento brasileiro, como contaram fontes do Brasil. Novos envios de gás do Brasil, através da Bolívia, estão acertados para os próximos meses. A relação energética é um dos pilares da relação entre os dois países. Na Argentina, o gás é usado nos setores residenciais (para cozinha e aquecedor), industriais e nos automóveis.
Os dois países, como observou uma alta fonte brasileira, possuem vínculo estratégico que supera as evidentes diferenças políticas de seus presidentes. Milei enviou duas cartas ao presidente Lula, depois daquelas agressões verbais na campanha. Mas não pediu desculpas. E, no governo argentino, dizem que dificilmente o fará. A expectativa é que os dois presidentes se vejam – ou se esbarrem – no dia sete de julho, na reunião dos presidentes do Mercosul, em Assunção, no Paraguai. Eles nunca se falaram, sequer por telefone ou troca de mensagens. A chanceler argentina, Diana Mondino, que costuma ser criticada por suas frases polêmicas, tem sido, porém, elogiada nos bastidores da diplomacia brasileira. É vista como um bombeiro necessário neste momento de ausência de diálogo presidencial. Diálogo que foi inexistente no período em que Bolsonaro e Alberto Fernández foram presidentes e, agora, entre Lula e Milei. Como Mondino é economista e não diplomata se rodeou de pessoas experientes no ramo da política externa. E assim, à sua maneira, vai tentando apagar incêndios.
Na Argentina, ao mesmo tempo, cresce a preocupação entre políticos e empresários com os efeitos da motosserra de Milei. Ele e seu ministro da Economia, Luis Caputo, defendem que é preciso arrochar, cortando, como se tem feito, bruscamente, em áreas como a ciência, a cultura e nos veículos públicos de comunicação, por exemplo, para que a Argentina volte a crescer. Antes, no governo e entre economistas se falava que a economia argentina teria comportamento de ‘V’ – com queda profunda para depois crescer rapidamente. Agora, já se fala em ‘U’, com queda profunda e recuperação muito mais lenta. A expectativa é que a contração do Produto Interno Bruto (PIB) seja em torno de 3% neste ano – a pior queda da América Latina e do Caribe, segundo organismos internacionais, como a Cepal, das Nações Unidas. A motosserra de Milei paralisou a manutenção dos vagões de trens, notam opositores preocupadíssimos, lembrando que a Argentina já registrou, no passado recente, acidentes trágicos com esse transporte público. Para eles, este é um ajuste silencioso, ‘escondido’, porém, no mínimo, perigoso. O cenário econômico tem provocado ainda a forte queda no consumo. Apesar da diminuição da inflação oficial em abril, muitos adiam suas compras ou compram o essencial. A inflação de abril, apesar da queda, superou 8% no mês. Resultado da conjuntura econômica: uma empresa de máquina de lavar roupas demitiu pessoal, mas não foi a única. Ao mesmo tempo, os mais desamparados socialmente aguardam que o governo libere os alimentos que já eram esperados pelos chamados ‘comedores’ – uma rede popular de refeições decisiva para aquele que às vezes mesmo tendo trabalho não consegue que o dinheiro chegue ao fim do mês. A outra cara dessa realidade são os cafés, os bares e restaurantes que continuam movimentados na cidade. Os argentinos já viveram tantas crises que, os que podem, se acostumaram a guardar dinheiro – muito ou pouco – para as horas difíceis. Na tentativa de manter um certo ritmo e padrão de vida, apesar dos solavancos. O atual pertence à ‘era Milei’.
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