Por Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia
Num momento político diferente do atual, a entrevista de Lula a Reinaldo Azevedo poderia ter um significado estranho e mesmo fora do lugar.
Hoje, o sentido é claro. “Lula emerge, quer gostemos ou não, com o líder político-carismático, capaz de tirar o Brasil do atoleiro”, postou o escritor e teólogo Leonardo Boff, em suas redes sociais.
Boff tem razão. Quando faltam duas semanas para o plenário do STF tomar uma posição sobre o despacho do ministro Edson Fachin, que anulou as condenações pela Lava Jato, reconheceu seus direitos políticos e pode abrir caminho para sua candidatura presidencial em 2022, a entrevista joga luzes importantes sobre o aqui, agora.
Não só pelas perguntas e respostas, mas pelo significado em si, o que explica a tremenda audiência que o depoimento obteve.
O convite a Lula não é um fato jornalístico, somente. Demonstra que setores respeitáveis das forças que controlam nosso sistema político, sem qualquer simpatia pelo Partido dos Trabalhadores ou pelos partidos de esquerda, começam a reconhecer que os horrores sem fim do bolsonarismo — Covid-19, colapso econômico, desmanche social — levaram o país um patamar impensável de miséria e selvageria.
Nessa hora tão difícil, Lula começa a ser reconhecido como um personagem insubstituível no esforço de salvação do Brasil e dos brasileiros.
O perfil de Reinaldo Azevedo ajuda a entender a mensagem. Crítico agressivo de Lula e do PT no passado, Reinaldo Azevedo evoluiu junto com outros personagens e o próprio cenário do país.
Tornou-se crítico da Lava Jato, num processo análogo ao que levou o ministro Gilmar Mendes, adversário mortal de Lula durante a AP 470-Mensalão e no impeachment de Dilma, a se tornar uma voz indispensável no julgamento que condenou Sérgio Moro por parcialidade, em 23 de março.
Agora, falta enfrentar uma nova etapa deste processo — a reunião do plenário do STF, marcada para 14 de abril, convocada com a perspectiva de oferecer a palavra final sobre seus direitos, inclusive disputar a presidência em outubro de 2022.
A entrevista ocorreu neste momento peculiar de nossa história.
Três anos depois da vergonhosa prisão de Curitiba, o mesmo Supremo que retirou Lula da campanha de 2018, e abriu caminho para a criminosa catástrofe de nossos dias, irá resolver se mantém a mordaça, ou devolve direitos usurpados. Esta é a pergunta do dia.
A resposta irá condicionar o futuro.
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