Diante das recentes ações dos Estados Unidos contra a Venezuela, que se configuram como uma intervenção direta em sua soberania, o Brasil não pode se omitir. Mais do que isso: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem a responsabilidade histórica de convocar uma reunião extraordinária do BRICS para debater o tema. Não se trata de defender governos, personalidades ou modelos políticos, mas de defender princípios fundamentais do direito transnacional: soberania, autodeterminação dos povos e rejeição a intervenções motivadas por interesses geopolíticos e econômicos.
A narrativa dominante tenta vender a ideia de que qualquer pressão externa sobre a Venezuela se justifica pela “defesa da democracia” ou pelo combate à corrupção e ao tráfico de drogas. Esse discurso, no entanto, já foi usado em diversos episódios recentes da história e quase sempre serviu de cortina de fumaça para objetivos muito mais pragmáticos. No caso venezuelano, o elemento central é evidente: o petróleo. O país possui uma das maiores reservas comprovadas do mundo e, historicamente, ousou desafiar a lógica do petrodólar e a hegemonia energética dos Estados Unidos.
Quando um país tenta negociar seus recursos fora do circuito tradicional dominado por Washington, passa a ser tratado como ameaça. Sanções econômicas, bloqueios financeiros, operações de desestabilização interna e, agora, ações de invasão tornam-se instrumentos legítimos na retórica imperial. Não é coincidência que países ricos em petróleo, mas politicamente autônomos, sejam alvos recorrentes desse tipo de intervenção.
Nesse contexto, o BRICS surge como espaço político fundamental. Reúne países que representam o Sul Global, que conhecem na própria história o peso da ingerência externa e que defendem um mundo multipolar. Lula, com sua credibilidade mundial e histórico de diálogo, tem condições únicas de liderar esse debate. Convocar o BRICS para discutir a Venezuela é afirmar que o arranjo entre as nações não pode continuar sendo regido pela força e pelo interesse energético de poucos.
Silenciar agora seria aceitar que a lógica do petróleo se sobreponha à soberania dos povos. Agir, por outro lado, é reafirmar o compromisso do Brasil com a paz, o multilateralismo e um mundo menos submetido à chantagem econômica e militar. Lula já mostrou, em outros momentos da história, que não teme contrariar interesses poderosos quando a justiça planetária está em jogo. A Venezuela exige, mais uma vez, essa coragem.
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