Opinião

O contraproducente debate racial no Big Brother Brasil

A grande maioria que assiste a essa bagaça televisiva não está interessada em ver o seu lazer transformado em muro de questões sociais

"Não é preciso ler a matéria da Revista Época desta semana para entender o recado da capa. É uma chantagem da família Marinho contra Lula e sua família. Mais ou menos assim: se você for candidato, nós vamos usar a Lava Jato e os nossos jornalistas pistoleiros para perseguir seus filhos, noras, netos e bisnetos; não vamos deixar dona Marisa descansar em paz", diz o jornalista Ricardo Amaral; "A Globo não perdoa Lula por ter sido o melhor presidente do Brasil de todos os tempos, por ter incluído o povo brasileiro na economia e no processo político como protagonista"
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Além de ser um programa, pelo menos, na minha humilde opinião, sofrível de se assistir, o tal Big Brother Brasil se tornou o mais contraproducente instrumento para um debate racial sério. E me decepciona muito, ver alguns ativistas relevantes e com um número considerável de seguidores nas redes digitais, usando esse entretenimento fanfarrão e manipulado por sua produção, para extrair dele recortes de racismo estrutural e suscitar discussão acerca do tema. O que eu considero uma banalização generalizada de algo tão caro a nós pretos e pretas desse país.

A grande maioria que assiste a essa bagaça televisiva não está interessada em ver o seu lazer transformado em muro de questões sociais. Sobretudo, quando elas não são do seu interesse. O que faz com que os participantes pretos da casa sofram rejeição do público, por estarem “atrapalhando” e “enchendo o saco” da audiência majoritariamente branca do programa. Isso já havia acontecido na edição em que a Karol Conká saiu como vilã e todos os “brothers” pretos foram eliminados em sequência. E está a se repetir na atual edição, e com requintes de deboche por parte de alguns dos participantes brancos, que exalam racismo em seus comportamentos, mas negam até a morte que sejam racistas.

Embora não assista ao programa na íntegra, é inevitável não ver passar na timeline das minhas redes, vídeos referentes à atração. Num desses, me deparo com uma discussão entre a modelo angolana Tina e uma outra participante de nome Key. A encrenca parecia ser por conta de alguma fofoca feita pela jogadora de vôlei contra Tina, que fez a modelo ir tirar satisfações com ela. No meio da discussão a angolana foi chamada de “garota” e pediu respeito dizendo que tinha nome e que era mãe de duas filhas. Como achei a treta muita vela para pouco defunto, fiz uma pesquisa para entender a origem da pendenga e descobri que tudo havia começado com um papo entre o médico Fred Nicácio, outro participante negro da casa, que estava informando a Key e a outros dois participantes, que movia um processo judicial contra eles por conta de uma atitude racista da qual havia sido vítima, e que estava relacionada a sua matriz religiosa africana. Os participantes disseram que tinham medo das rezas que Fred fazia na casa.

Os ânimos se alteraram, o cinismo da branquitude racista foi ativado e bingo. Tina foi considerada a mais desequilibrada da história. Perpetuando o estereótipo de raivosa e agressiva, que os racistas costumam atribuir às mulheres pretas. Tudo isso, porque muitos pretos ainda não perceberam, uns por inocência, outros por conveniência, que racismo é sério demais para ser debatido na casa dos racistas. Toda a didática empregada pelo médico Fred Nicácio ao explicar para os demais participantes o que é racismo estrutural e o quanto ele afeta a existência dos pretos na sociedade, foi em vão. E ele ainda está sendo acusado de querer aparecer em cima da causa, por ter deixado para comunicar as providências judiciais que tomou diante das câmeras. Analisando os comentários do público sobre o imbróglio, observei a maioria dos opinantes se posicionando a favor dos participantes brancos e se referindo a Tina e a Nicácio como “essa gente chata” que só fica se vitimizando.

Imaginem um cristão fundamentalista indo a uma casa de tolerância desfrutar dos prazeres lá oferecidos, e começar a pregar sobre moralidade e sobre o quanto aquela atividade comercial o afasta da salvação e o aproxima do inferno. É assim que eu vejo os pretos que aceitam participar do BBB e depois querem levantar a questão racial dentro da casa. O jogo ali é um vale tudo, puro capitalismo selvagem, onde um milhão e meio de reais está em disputa. Sabemos bem que capitalismo e negritude estão em lados opostos, no que diz respeito ao poder econômico. O capitalismo é branco e só existe graças à exploração da mão de obra trabalhadora e, por vezes, ainda escravizada, composta em grande maioria por pretos e pretas. Desde quando um branco que está disputando um milhão de reais com um preto, irá se preocupar com a questão racial dentro desse jogo, se toda a estrutura social foi construída para privilegiá-los, independentemente de qualquer coisa e acima de qualquer situação? O racismo institucional preconiza que pretos nem deveriam estar na competição, uma vez que, mesmo após a abolição, éramos impedidos de frequentar escolas, de possuir terras, de sermos atendidos no comércio, de exercer algumas funções profissionais e outras privações sociais que visavam nos tornais marginais sob políticas de estado.

Parem de banalizar a causa e oferecer munição aos seus haters, levando para o meretrício do entretenimento televisivo uma luta de séculos, onde muitos de nossos ancestrais morreram erguendo suas vozes em busca de libertação. Parem de submeter a causa racial à apreciação de um público que assiste ao programa apenas para ver dedo no monossílabo sem acento e gritaria.  Estão levando a pauta racial para debaixo do edredom e fornicando com ela. Para a alegria dos racistas que podem extravasar livremente o seu preconceito e a sua indiferença à luta, sob a alegação de que o foco do programa não é esse. E não é mesmo. E cabe aos pretos e pretas que topam participar da atração, entenderem que estão entrando numa casa grande onde todos são monitorados por câmeras, mas os mais vigiados socialmente serão eles. Me incomodou demais o deboche de um participante, que estava às gargalhadas enquanto a angolana Tina discutia a jogadora de vôlei. Um homem branco provocando uma mulher preta e a chamando de infantil e descontrolada. E nenhum outro participante, nem os pretos, o advertiram a respeito.

É por essas e outras, que eu não caio na armadilha de debater racismo onde não se deve, com quem não quer ouvir e com gente que não está interessada em deixar de reproduzir pensamentos, falas e comportamentos racistas na sociedade. É cilada, Bino!

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Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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