Com as eleições dos novos presidentes da Colômbia, Abelardo de la Espriella, e do Peru, Keiko Fujimori, o mapa da América do Sul ficou ainda mais inclinado para a extrema-direita. O Brasil, com o presidente Lula, e o Uruguai, com Yamandú Orsi, são as exceções num território que já teve, no início deste século, a predominância da esquerda e da centro-esquerda. Abelardo, o ‘tigre’, e Keiko, como gostam de ser chamados, unem-se agora a uma onda que já conta com Javier Milei na Argentina, José Antonio Kast, no Chile, Daniel Noboa, no Equador, Santiago Peña, no Paraguai, e Rodrigo Paz, na Bolívia. Milei diz que é a ‘onda azul’. Numa foto ao lado do senador Flávio Bolsonaro, nesta segunda-feira, aqui em Buenos Aires, Milei escreveu em suas redes sociais que a ‘onda azul’ está chegando no Brasil.
Mercosul, sem Milei e com Lula
O presidente boliviano se define como sendo de centro-direita, mas sua primeira viagem internacional após ter sido eleito foi aos Estados Unidos e não ao Brasil, rompendo uma tradição que era mantida por seus antecessores do Movimento ao Socialismo (MAS), Evo Morales e Luis Arce. Peña, do Paraguai, por sua vez, já fez elogios públicos ao presidente do Brasil durante uma reunião do Mercosul, em janeiro deste ano. Mas mantém diálogo frequente com Milei – com quem o presidente Lula não conversa. Nesta terça-feira, os presidentes do Mercosul participam da reunião semestral do bloco, em Assunção, no Paraguai, quando a presidência, que é rotativa, será passada para o Uruguai. Milei cancelou sua participação um dia antes, na segunda-feira, logo após encontro com o senador Flávio Bolsonaro em Buenos Aires. Milei argumentou questões internas porque dará posse, nesta terça-feira, ao novo chefe de Gabinete da Presidência. Lula confirmou presença. Os dois não se falam. Na reunião anterior, o presidente Lula não esteve e assim pode evitar ver o presidente da Argentina.
A cartilha da extrema-direita:
Neste cenário, é possível traçar pontos em comum da extrema-direita, como as estratégias discursivas para atrair o eleitor.
A seguir dez pontos que formam, hoje, a cartilha da extrema-direita e motivos para prestar atenção em relação à eleição presidencial deste ano no Brasil.
Redes Sociais e três desafios na campanha brasileira: Elas passaram a ser ferramenta decisiva nas eleições. Na Argentina e na Colômbia, Milei e Abelardo aplicaram estratégias intensas para atrair o voto, principalmente, dos mais jovens e dos indecisos. As mensagens curtas, e às vezes agressivas, chamaram atenção e, muitas vezes, foram viral. Neste ambiente as fake news também encontraram terreno fértil, desafiando as regras democráticas. Na Colômbia, o senador e filósofo de esquerda Iván Cepeda foi alertado sobre a importância do maior uso das redes sociais. Quando ele concordou com a ideia, faltavam poucos dias para o segundo turno. Seu opositor já dominava esse novo universo. Cepeda aceitou a vitória de Abelardo, mas acusou as fake News, a intromissão de Trump na campanha e o uso de Inteligência Artificial (IA). Sem dúvida, três desafios também na campanha brasileira.
Simpatia militar e continência: O presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella, bate continência em quase todos os seus atos. A sua imagem nos cartazes da campanha teve o mesmo gesto. Apesar de ele ser um advogado criminalista e empresário milionário, sem trajetória militar, ao copiar a regra dos fardados, o colombiano (que venceu a eleição por menos de 1%) buscou mostrar sua simpatia pelas Forças Armadas e sinalizar que pretende impor a linha ‘mão de ferro’ na segurança pública. Milei, por sua vez, colocou um militar no cargo de ministro da Defesa, rompendo uma tradição de um civil à frente da pasta em tempos democráticos.
Segurança pública e ‘bombas’: As medidas do presidente de El Salvador, Nayib Bukele, têm inspirado os nomes da extrema-direita que prometem mão de ferro em suas políticas de segurança. A presidente eleita do Peru, Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, promete a maior participação das Forças Armadas no âmbito da segurança pública, incluindo a presença do Exército nos presídios. Ela também promete iniciativas que evitem processos na Justiça contra abusos de policiais e de militares, como informaram as agências internacionais de notícias. O colombiano Abelardo de la Espriella também promete linha dura contra o crime e chegou a dizer que lançaria ‘bombas’ em acampamentos de traficantes de drogas.
Por sua vez, Noboa, do Equador, já conta com a presença de militares em suas ações em parceria com os Estados Unidos. O Equador é o país com maior índice de homicídios por 100 mil habitantes na América Latina. Mas a militarização não tem mostrado efeitos positivos nas estatísticas e na vida dos equatorianos. Outro presidente adepto da maior participação direta das Forças Armadas no cotidiano das pessoas é Kast, do Chile, que declarou admiração pelo ditador e general do Exército Augusto Pinochet. A segurança pública e seus métodos também fazem parte da preocupação dos brasileiros.
Religião e guru espiritual: Milei viajou 4 vezes a Israel desde que tomou posse há dois anos e meio. Ele foi ao Muro das Lamentações, em Jerusalém, onde chorou copiosamente. A fé de Milei é associada ao judaísmo, apesar de ele não ter se convertido e se declarar católico. Sua crença incluiu a decisão de ter nomeado seu guru espiritual, o rabino Shimon Axel Wahnish, como o embaixador da Argentina em Israel. Milei já fez várias referências sobre sua fé em seus discursos. Já o presidente do Chile, José Antonio Kast, frequenta missas da Igreja católica quase diariamente e instaurou a realização de 4 missas por semana na capela do Palácio presidencial La Moneda. A associação entre religião e política nunca esteve tão forte desde o retorno da democracia no Chile, em 1990.
Evangélicos? Ao contrário, da bancada evangélica no Brasil e da importância do ‘voto evangélico’ no ritmo da política brasileira, essa presença não é notória nos países onde a extrema-direita foi eleita recentemente. As igrejas pentecostais tiveram crescimento nos últimos tempos nos países da América Latina, mas não como no Brasil, onde encontraram terreno fértil.
Imigração e bolsonarista: O presidente do Chile construiu valas para tentar impedir a chegada de migrantes dos países vizinhos – Peru, Bolívia e Venezuela. Milei, da Argentina, passou a exigir maior controle migratório e ampliou as exigências para os que requisitem a residência permanente no país. Mas concedeu asilo político a apoiadores de Bolsonaro que fugiram do Brasil após terem sido condenados pela intentona golpista de 8 de janeiro de 2023. No Peru, durante sua campanha à presidência, Keiko Fujimori, prometeu a expulsão de migrantes, seguindo como Kast, do Chile, por exemplo, as linhas de expulsão impostas por Trump nos Estados Unidos.
Contra homoafetivos: No Fórum Econômico de Davos em 2025, Milei atacou a comunidade LGBTI+ e, como era esperado, recebeu fortes críticas na Argentina e em outros países. Ele também eliminou o ministério da Mulher e políticas em defesa das mulheres. Na Colômbia, Abelardo de la Espriella, insinuou críticas contra políticos gays e indicou que casais do mesmo sexo não poderiam adotar crianças. Diante das críticas, ele disse, na reta final da campanha, que não é homofóbico e que respeitaria a constituição do país. Percebeu que o pensamento retrógrado lhe tiraria votos.
Estado mínimo: O colombiano Abelardo se inspirou no pacote de arrocho de Milei, prometendo dolarizar a economia (o que Milei acabou não fazendo) e usar a ‘motosserra’ para cortar cerca de 40% do Estado e com 700 mil demissões. O Estado mínimo também é pilar do chileno Kast e da peruana Keiko Fujimori – ‘doa a quem doer’ na região, a América Latina, que é a mais desigual do planeta.
Admiração por Trump e ‘MAGA’: Milei já esteve 16 vezes nos Estados Unidos desde que tomou posse há dois anos e meio. Sua admiração por Trump parece ser até maior do que sua admiração pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Nesta semana, Milei comunicou, através de suas redes sociais, a troca do chefe de Gabinete da Presidência e terminou a mensagem com a marca de Trump: MAGA (no caso dele para dizer: ‘Make Argentina Great Again – Faça a Argentina grande novamente’). Além de Milei, Abelardo, o ‘tigre’, da Colômbia, Keiko, do Peru, e Noboa, do Equador, e Peña, do Paraguai, são admiradores de Trump e querem continuar intensificando essa relação bilateral. Em quase todos os países da América do Sul, a China é o principal parceiro comercial. Algumas das exceções, por exemplo, são a Argentina que tem o Brasil como principal sócio comercial e a Colômbia que tem os EUA como principal parceiro histórico.
A ‘reinvenção’ da política: Os políticos da extrema-direita eleitos recentemente na América Latina chegam com pouca ou nenhuma experiência na política partidária (a peruana Keiko é exceção). O colombiano Abelardo de la Espriella, advogado de 47 anos, jamais exerceu um cargo legislativo ou no Executivo e, como Milei, economista que ficou conhecido através de programas de TV e redes sociais, quer reinventar a forma de se fazer política.
Partidos nanicos: O partido de Abelardo, Defensores da Pátria, tem apenas três parlamentares no Congresso Nacional. Ele espera ter o apoio da direita tradicional para poder aprovar seus projetos e governar. Mas ele já disse que os decretos serão seus aliados. A formação e a sobrevivência dos partidos são outro desafio nestes tempos democráticos.
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