Toda vez que apanha, Lula reage lembrando como era o Brasil nos tempos de Bolsonaro. É como se dissesse: não estão contentes comigo?, não se esqueçam que os livrei de uma boa! Imaginem o horror que seria se eu perdesse a eleição!
Usa o ex-presidente como espantalho – que também quer dizer “indivíduo inútil” e “pessoa feia, muito magra” – para espantar as aves do mau agouro, do mau olhado e os abutres.
Até aí, tudo bem. Ele está certíssimo. Lançou-se a uma batalha duríssima na idade em que a maioria veste o pijama e cuida dos netos. E venceu a maior ameaça à democracia desde a redemocratização. Veio, viu e venceu. Merece todos os louros.
No entanto, uma das consequências desse discurso é que Bolsonaro não cai no ostracismo – que é onde já deveria estar. Toda vez que Lula cita um malfeito de seu antecessor para marcar a diferença com a realidade de hoje, mantém seu nome no noticiário e habilita-o como seu antagonista, seu principal adversário ou inimigo.
Nove anos mais jovem que Lula, Bolsonaro terá, daqui a oito anos – durante os quais provavelmente estará inelegível, a julgar pelo andar da carruagem – a mesma idade que ele tem hoje. Se for preso, estará livre em oito anos.
Poderá, portanto, em tese, concorrer de novo à presidência em 2030, sem ter de enfrentar Lula, que não poderá se candidatar ao terceiro mandato – se é que vai se candidatar ao segundo.
O discurso do espantalho sinaliza que o embate PT vs. bolsonarismo está longe de terminar, o que não vai ajudar, com certeza, a pacificar o país e colocar comida na mesa dos brasileiros.
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