Opinião

Ou seja

O Braga com assunto é bom, sem assunto é ótimo (Manuel Bandeira disse mais ou menos isso sobre o amigo Rubem Braga; para muitos, o maior cronista do Brasil)

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Poucos e bons. Raras e fiéis. Assim, são meus leitores e minhas leitoras, que nem sempre acompanham todas as crônicas, mas se bastasse a vontade, teriam lido todas, ou quase, solidários que são.

Sabemos que pouco vale o desejo se quando o texto pisca no celular a pessoa está com filho no colo, embaixo do chuveiro ou em cima da esteira. Claro, deixa-se pra depois. Mas quem manda no futuro que brinca de nos iludir?

Guardei, e ainda guardo, pedaços de jornal para ler noutro dia e então o amanhã já virou hoje, com novas notícias e outras surpresas. Adeus leitura. Lá num canto, descansam os recortes empoeirados e virgens, que dias mais tarde dispenso no lixo reciclável, querendo eu mesmo reciclar meu tempo.

É o mesmo destino das mensagens de texto, de áudio, vídeos…a pessoa insiste, “este vale a pena”. Valia. A memória do celular pede socorro e jogamos tudo em uma outra lata de lixo que nunca soube onde fica.

Comecei cedo a prática do adiamento, na escola com o dever de casa, depois com os recados na secretária eletrônica e os bilhetes no mural de cortiça de uma redação já aposentada. Dizia baixinho pra mim mesmo: se posso fazer amanhã, pra que resolver hoje?

É assim, somos assim, pelo menos alguns de nós.

O que acabo de fazer nestes parágrafos aí de cima, alguns jornalistas chamariam “de nariz de cera”, ou seja, enrolar e dar voltas como um peru de festa antes de ir pra mesa.

“A objetividade é teu desafio, Cosme. Não enrola” , trovejou certa vez um mandachuva, quase a ordenar tempestade. Gostei da frase e nunca me esqueci. Inclusive, porque como vemos aqui, o desafio persiste, certo?

Outro bom chefe que tive no jornalismo perdoava atraso e até erro de português, só não se conformava com o “ou seja”. Era mais ou menos assim: chegava um texto como este (o excesso de redundâncias é por minha conta ): “a estrada sinuosa e cheia de curvas serpenteava morro acima em direção ao pico e, sob calor infernal e sufocante de quarenta e dois graus, dezenas de veículos seguiam em baixíssima velocidade levando centenas de pessoas para a celebração religiosa, e todos chegaram depois da hora, ou seja, com o congestionamento enorme a romaria atrasou.” Rosado de fúria, o chefe decretava com a firmeza de sempre:

– É do ou seja pra frente. Porque essa é a função do ou seja, resumir e concluir o que foi dito antes.

– Mas e a estrada sinuosa? Tava bonito o serpenteando…

– Corta. Papo furado é lá fora, aqui é notícia.

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Capa do livro Birinaites, Catiripapos e Borogodó, de Luís Cosme Pinto(Photo: Reprodução)

Sem dó e com razão, ele suprimia o início da frase e restava: “com o congestionamento enorme, a romaria atrasou.” Ou seja, até o ou seja dançava.

Apelo mais uma vez à sua paciência para dizer que esse ainda não é o assunto da crônica, ou seja, enrolei mais um pouco. Meu chefe querido hoje é ex-chefe e quem me lê é você, ou seja, uma parolagem a mais não vai atrasar quem embarcou nesta leitura vadia. Do título até aqui passamos das 500 palavras.

Jornalismo e Literatura têm seus laços, por vezes andam juntos. Autores consagrados começaram a pagar suas contas escrevendo notícias. O contrário também é verdade, muitas e muitos repórteres são fãs do Jornalismo Literário, estilo em que a criatividade conta mais do que a objetividade. Uma escrita sem as mordaças de tempo e espaço, e que a gente lê sem cansar de tão saborosa. Aqui no Brasil, tivemos a revista Realidade, e hoje, a mais conhecida nesse jeito de romancear as notícias, é a Piauí.

Em redações e cursos de Escrita Criativa é comum ouvir. “Senta e escreve”, “O bom texto é mais transpiração que inspiração.” “O importante é escrever todo dia.”

“Mas eu estou sem ideia, vou escrever o quê? Me ajuda!”, suplica o aprendiz. Então, ecoa a voz rouca da experiência: “falta de assunto também é assunto, escreve sobre isso.”

Ou seja, é aí que a conversa fiada vira crônica.

*Luis Cosme Pinto é autor de Birinaites, Catiripapos e Borogodó, da Kotter.

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Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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