Opinião

Reação ao golpismo de empresários bolsonaristas faz parte do aprendizado democrático

Num país com a democracia em permanente construção, a história ensina que nenhuma iniciativa golpista pode ser tolerada, escreve Paulo Moreira Leite

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Por Paulo Moreira Leite

Diante dos antecedentes conhecidos, só se pode aplaudir a reação das entidades de juristas diante da revelação — publicada por  Guilherme Amado, do site Metropplis — sobre conversas entre grandes empresários bolsonaristas, envolvendo iniciativas golpistas contra Luiz Inácio Lula da Silva. 

Vinte e quatro horas após a divulgação da notícia, um conjunto de seis entidades bateu às portas do Supremo Tribunal Federal para pedir ao ministro Alexandre de Moraes que sejam incluídos no inquérito sobre milícias digitais antidemocráticas.

Participam da iniciativa a Associação Brasileira de Juízes pela Democracia, Associação Americana de Juristas, Instituto de Pesquisas e Estudos da Magistratura e Ministério Público do Trabalho, além da Comissão de Justiça e Paz do Distrito Federal.

Na petição, alegam a existência de “fortes indícios e significativas provas” da existência de uma verdadeira “organização criminosa”.

Também dizem que o país está diante de  “elementos indiciários a demonstrar uma possível organização de empresários, que trama desestabilizar as instituições democráticas.”

Basta lembrar a queda de Dilma em 2016 e o bloqueio à candidatura de Lula em 2018, tramas que condicionaram a vitória do bolsonarismo em 2020,  para reconhecer que a iniciativa das entidades de juristas  bate no ponto correto.

A experiência recente reforça a noção de que nenhum indício de crime contra a democracia deve ser desprezado, por mais inofensivo que possa parecer.

Um exemplo pouco conhecido — entre tantos — envolve a pré história da Lava Jato. Em dezembro de 2014, quando a atual ruína Sérgio Moro sequer se transformara num monumento nacional, o Estado de S. Paulo publicou uma reportagem bastante reveladora sobre a Operação Lava  Jato.

Assinada por Julia Duailibi, a reportagem contava que delegados utilizaram-se de redes sociais para fazer campanha a favor de Aécio Neves e ofender Lula, já ex-presidente, e Dilma, ainda no cargo. Lula era chamado de “essa anta”e Dilma retratada com traços vampirescos, uma faixa que dizia “fora PT”e proclamava que seu objetivo era mostrar que “o comunismo e o socialismo são um grande mal que ameaça a sociedade”.

Havia um aspecto disciplinar óbvio, numa corporação que, no artigo 364 do regimento disciplinar, condena referências depreciativas a “autoridades e atos da administração pública, qualquer que seja o ato empregado para este fim.”

Mas um ovo da serpente estava nascendo — e havia pouco interesse em interromper uma investigação partidarizada, que em poucos anos iria produzir golpes pesados à democracia instalada no país.

A reportagem deu sinais de uma conspiração política em curso, através da Polícia Federal, mas a trama seguiu seu curso, sem ser incomodada por ninguém. O fim da história todos conhecem.

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Cortes 247

Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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