Ao primeiro rugido de Rodrigo Maia e de outros aliados no Congresso, Temer recuou da intenção de aumentar a cobrança de imposto de renda, poucas horas depois de lançada ao vento pelo ministro Meirelles e confirmada por ele próprio. O episódio foi mais uma demonstração de que Temer, depois da votação que o livrou do processo por corrupção passiva, tornou-se ainda mais refém de sua base, que não chiou por apreço à classe média que sofreria mordida maior nos salários . A base chiou de olho no voto, certa de que já se expôs demais à ira ou ao desprezo dos eleitores com a salvação de Temer, a aprovação da reforma trabalhista e o endosso ao desastre econômico, afora a pressão para que ainda aprove a reforma previdenciária. Presidente decorativo e refém do Congresso, Temer diz com uma jactância ridícula que governa em regime semipresidencialista, e agora se presta a defender o golpe do parlamentarismo, fingindo ignorar que o povo brasileiro, no plebiscito de 1993, rejeitou este sistema de governo e optou por ter presidentes plenamente empoderados para tomar decisões e governar. Presidentes legítimos, naturalmente.
A rendição de Temer ao Congresso no ensaio do imposto de renda foi mais uma evidência de que, vencida a batalha contra a primeira denúncia de corrupção, ele usará a Presidência como for preciso para se livrar de uma nova flechada de Rodrigo Janot. Não contrariou a base porque deve precisar dela novamente para escapar do processo e manter-se no cargo. A arguição da suspeição de Janot junto ao STF não produzirá efeito prático algum. Nem o ministro Fachin nem o plenário vão acolher os argumentos de sua defesa, de que é perseguido por Janot por razões pessoais, apesar da fartura de indícios que justificam as investigações. A iniciativa, entretanto, serve à produção de argumentos, de discursos para seus aliados brandirem no microfone. Não de explicações para a sociedade, que esta segue com seu altaneiro desprezo por Temer, não se dando ao trabalho de protestar.
A nova denúncia está a caminho e o governo moverá mundos e fundos, já escassos, para aliciar votos. Há sinais de que o fogo pode subir na guerra contra Janot. É cedo para saber se a maioria da Câmara estará disposta a um novo desgaste para salvá-lo. Quanto às contas públicas, sem o aumento do imposto de renda Meirelles e sua equipe estarão mais à vontade para dizer que não há outro jeito senão aumentar o deficit fiscal deste ano.
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