Antes de começar a discussão, o Sr. Honório procura no ponto mais denso das fileiras da maioria um lugar seguro e que o ponha a salvo dos botes do Sr. Navarro, que tendo já na sessão antecedente dado investidas ao Sr. Calmon e sobretudo ao Sr. Rodrigues Torres para espancá-los, mostra nos olhos inflamados e desvairados, nas atitudes desordenadas, extravagantes e ameaçadoras todos os sintomas ou de hidrofobia ou de alienação mental.
Uma espécie de terror reina nos bancos dos ministeriais, à vista da desordem cerebral do seu antigo companheiro e co-sócio das transações; e cada qual, sem o perder um momento de vista trata de unir-se o mais estreitamente que pode ao seu vizinho, como um quadrado de infantaria para repelir a carga da cavalaria.
O Sr. Navarro: – Peço a palavra (sussurro; o temor redobra; o Sr. Honório empalidece; procura-se, em vão, o Sr. Rodrigues Torres debaixo do banco em que costuma assentar-se, não está presente).
O Sr. Presidente: – Tem a palavra o Sr. Navarro.
O Sr. Navarro (com veemência): – Camarilha infame, camarilha de ladrões, camarilha de traficantes de meias caras, dobrou enfim a hora de perderes o predomínio sobre o Brasil.
Alguns Srs: – À ordem! À ordem! Que escândalo!
O Sr. Presidente: – O Sr. Deputado não pode continuar assim; à ordem!
O Sr. Navarro (sem atender às vozes do presidente):
– Homens indignos que traístes o vosso colega (o Sr. Vasconcelos), entrando sem ele para a administração; o que me destes a mim que tanto vos servi, o que me destes? (ao ouvirem estas últimas expressões o presidente e todos os homens honestos da casa abaixam a cabeça, envergonhados do despejo do ganhador).
O Sr. Navarro (continuando): – Em breve o povo brasileiro ver-se-á livre do vosso jugo vergonhoso, camarilheiros execráveis que vos tendes enriquecido todos à custa da fortuna da nação que dilapidastes, corvos vorazes que preais as carnes maceradas do pobre país (violento tumulto; os gritos “à ordem” soam de todos os lados da sala); o Sr. Navarro, convulso e vociferando como um energúmeno faz um movimento ameaçador para o banco em que se assentam os deputados pelo Rio de Janeiro; o Sr. Gonçalves Martins aproxima-se do furioso para contê-lo e apaziguá-lo e é rechaçado com uma punhada que o atira por terra.
A confusão sobe ao auge; o Sr. Navarro, cada vez mais frenético e transtornado, leva a mão precipitadamente na algibeira e arremete para os deputados do Rio de Janeiro que fogem de tropel, caindo uns sobre outros.
Os deputados ministeriais (fugindo):
– Tem um punhal na mão! Tem um punhal! À ordem! À ordem!
A agitação da casa é difícil de exprimir; todo esse tumulto é coberto pela voz de stentor do Sr. Navarro que não cessa de gritar – ladrões… prevaricadores… meias-caras…No fim de um quarto de hora que durou esta cena horrível restabelece-se o silêncio.
O Sr. Barreto Pedroso: – Eu vi reluzir nas mãos do Sr. Deputado um punhal; fugi com os meus colegas que se assentam ao meu lado não por medo, mas porque entendi que não devia baratear a minha vida quando o interesse do país não exige tal sacrifício.
O Sr. Marinho: – Devo declarar que o deputado que acaba de cometer nesta casa tão enormes excessos não pertence e nunca pertenceu ao meu lado; e em nome da causa que defendemos e do decoro desta Câmara que a todos nós cumpre manter protestamos altamente contra tais excessos.
O Sr. Honório Hermeto: – Peço a V. Exc. que mande examinar por uma comissão de médicos o estado mental do Sr. Navarro, porque à vista do que desde alguns dias e hoje sobretudo acaba de praticar é evidente que se acha em completa alienação mental; e que conseguintemente não deve mais assistir às nossas discussões que ele tem perturbado de um modo indigno e horroroso e que não podem continuar pelo perigo que corremos de sermos assassinados por este doido furioso.
(Podia ter sido hoje, na Comissão de Ética da Câmara dos Deputados, mas é uma notícia do Diário do Rio de Janeiro de 16 de julho de 1840).
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