São bodas de ouro. Há 50 anos, Zélia – vamos chamá-la assim – casou com a notícia e sequer pulou a cerca. Repete pelas redações e botecos, onde é recebida como professora: “Quanto mais fácil de entender, mais difícil de escrever”. É quase uma confissão da veterana jornalista, a linguagem direta, com palavras acessíveis, é arte pra poucos.
Para a ex-repórter e ex-editora, há dois tipos de notícia: a que a gente lê e entende e a que a gente desiste no meio.
Todo dia abro o jornal, vejo as fotos, leio artigos e reportagens. É mais caro que a versão digital, suja as mãos, desarruma a casa. Não estou nem aí, sou freguês de nossos diários desde os anos 1970.
Já ouvi que é mania de velho. Concordo, porque estou mesmo ficando velho – aliás, como todos nós; e tenho minhas manias – aliás, como todos nós.

Porém, num dia desses de pouca notícia, muito anúncio e sem a coluna do Álvaro Costa e Silva, pensei em abandonar o hábito de uma vida.
Não pela falta de qualidade da cobertura ou pela ausência das grandes reportagens. O problema é mais grave: quanto mais leio, menos entendo as manchetes.
O incômodo aumentou depois de uma avalanche da palavra Arcabouço. O tal Arcabouço Fiscal. Por mais de mês os jornais repetiam a palavra nas manchetes sobre a Reforma Tributária. TVs e rádios seguiam o mesmo descaminho. Por que em vez de Arcabouço não usar as mudanças nos impostos ou as novas regras fiscais?
Brotam monstrengos. “Descontinuidade no fornecimento de energia elétrica”, em vez de apagão; “Crise hídrica”, no lugar de falta d’água; “Letalidade policial”, ao invés de pessoas mortas pela polícia. Não entendo a preferência pelo mais difícil.
De repente, viramos imortais. Dizem as reportagens, sobretudo as de TV, “a bala perdida atingiu fulana, que não resistiu aos ferimentos”. “Socorrido, o suspeito não resistiu aos ferimentos.” O verbo morrer, que não deixa ninguém na dúvida, morreu, ou melhor, não resistiu.
Siglas, essas estão bem vivas. De algumas somos íntimos, como SESC, IBAMA, PROCON; também conhecemos bem STF, FHC e USP. Porém, PEC, PAC, ADIN, PGR, AGU, FENASEG… Tudo ao mesmo tempo e às vezes na mesma página, o leitor não merece.
Vi em letras grandes: “França apoia Tábata e Datena em São Paulo.” Acreditei que a dupla de candidatos conquistara apoio internacional. Nada disso. França é o Marcio França, ministro. Que tal ministro Marcio França apoia? Quando a gente lê apenas França imagina o país, ou não?
A Venezuela ameaçou invadir a Guiana e o editor lascou na primeira página: “Maduro pretende anexar território…”. Anexar não é aquilo que fazemos com os arquivos que enviamos por e-mail? Por que “anexar o território” em vez de invadir, ocupar, tomar?
Zélia se preocupa e junta as sobrancelhas, “jornais existem para ajudar o leitor a entender o que acontece e não para confundir”.
A crise é grave, a venda cai, os empregos despencam e não adianta culpar a internet. Jornalismo bem feito dá trabalho e custa dinheiro. Há excelentes profissionais na ativa, em geral ganham menos e trabalham mais do que deviam. Tentam, mas não fazem milagre.
No último Brasil x Argentina, a polícia militar do Rio de Janeiro e seguranças particulares desceram o cacete nos torcedores argentinos. A foto mostrava mulheres e crianças desesperadas no meio da pancadaria. Já a manchete amenizava: “Polícia reprime torcedores”. Por que reprime em vez de bate, ataca, agride?
Zélia é ligada no futebol. Vascaína dos bons tempos de Roberto Dinamite, só não tolera certos programas esportivos em que alguns comentaristas preferem as explicações mais difíceis.
Até os nomes dos jogadores se complicaram. É sobrenome pra todo lado. Rafael Veiga, Yuri Alberto, Jefferson Matheus; Ganso é Paulo Henrique Ganso; Felipão, Luiz Felipe Scolari.
Com Pelé, Tostão e Zico era mais fácil narrar e torcer. Complementos só os especiais, como Doutor Sócrates, Beto Fuscão, Jorginho Carvoeiro, Paulo César Caju. Aí sim.
Como o Jornalismo, o futebol consagra a simplicidade. Chacrinha – que hoje talvez fosse chamado de José Abelardo Barbosa de Medeiros – alertava, cheio de graça no maravilhoso programa a Buzina do Chacrinha, “quem não se comunica, se trumbica.”
E então, Zélia, nós nos trumbicamos ou ainda tem jeito?
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