Brasil e Venezuela são convocados a estreitar cada vez mais seus laços políticos e estratégicos no cenário global que está sendo traçado por Donald Trump de priorizar a exploração de petróleo não apenas nos Estados Unidos como em todo o mundo pelas corporações petrolíferas americanas convocadas emergencialmente para essa tarefa pelo candidato republicano.
Depois que terminou o Acordo EUA-Arábia Saudita que bancava o petrodólar, como lastro real do dólar, os americanos entram em emergência monetária estrutural, porque sua moeda ficou mais vulnerável.
Sem a garantia do petróleo, a moeda americana pode virar papel de parede, no contexto em que a dívida pública americana ultrapassa a casa dos 30 trilhões de dólares, deixando alarmado o mercado financeiro especulativo global.
Junto com o petróleo, Trump, em seu discurso de sábado, voltou a destacar suas três outras prioridades imperialistas: 1 – imigração; 2 – carro elétrico e; 3 – protecionismo.
Identitarismo: fuga da realidade
Direita e ultradireita, campo de ação ideológica do fascista republicano, elegem o identitarismo como fuga da realidade.
Alvos falsos dos fascistas como culpados da crise americana: LGBTQI+, imigrante, pobre, negro, palestino, indiano etc.
Não encaram a verdadeira crise do capitalismo americano, que é a tendência estrutural à queda da taxa de lucro, como previu Marx, em O Capital, em razão da superacumulação de capital, agora, na esfera da financeirização total do sistema capitalista.
Buscam, por isso, bodes expiatórios nas derrotas que os Estados Unidos vêm sofrendo, especialmente, depois do crash de 2008.
De lá pra cá, a preocupação do Império é expandir guerras para conquistar territórios e governos submissos, especialmente, dos países detentores de matérias primas estratégicas – Oriente Médio, América Latina, África etc.
Sem tais insumos, a manufatura capitalista entra em colapso.
A tentativa de submeter a Rússia, rica em minerais, deu com os burros n’agua na guerra por procuração na Ucrânia, razão pela qual Washington, sob Trump, se eleito, desiste de enfrentar Putin, detentor de tecnologia armamentista mais sofisticada e perigosa.
Agora, o alvo é a China.
Enquanto isso, o identitarismo é a matéria prima que serve para enganar a população sobre as reais vulnerabilidades concretas, colocando a culpa longe das suas verdadeiras origens.
Os imigrantes passam a ser culpados de tudo.
Trump, no discurso desse final de semana, repetindo a lenga-lenga de sempre, mente que a Venezuela, El Salvador e outros combatem o crime, exportando criminosos para os Estados Unidos.
Por isso, assume o compromisso de que vai deportar todos os bandidos aos seus países e cercar o país com um extenso muro de contenção.
Inflama seus seguidores a acumular sangue nos olhos.
Protecionismo X China
O candidato republicano vê a China como a perigosa adversária.
Disse que ela constrói a maior fábrica de automóveis elétricos no México para exportá-los aos Estados Unidos.
Promete não deixar isso acontecer, elevando tarifas de importação.
Vai, portanto, rasgar o acordo comercial que tem com Canadá e México, o Nafta, se for preciso.
Haverá impasse na relação dos três países em nome do combate ao mal chinês.
O carro elétrico chinês, cuja tecnologia os Estados Unidos, também, possuem, insere-se na questão das alternativas energéticas ao petróleo.
Trump descarta os apressados que dizem estar chegando ao fim a era do petróleo como combustível fóssil.
Quer continuar com o carro a gasolina, porque teme o carro elétrico.
Alarma-o, sobretudo, a concorrência chinesa, que tiraria empregos dos americanos.
Rasga a concepção liberal do livre mercado.
Partirá para o protecionismo sem peias, pré anunciando guerra comercial.
Comprova com esse temor que os Estados Unidos já perderam a competitividade para a China, quando se compara pelo critério de paridade do poder de compra.
O republicano não quer arriscar sair de peito aberto com a tecnologia do carro elétrico para enfrentar o concorrente chinês.
Oligopolio estatal X oligopólio privado
O problema central do custo baixo da China está nas fontes de financiamento.
Quem comanda o crédito no país é o partido comunista por intermédio dos bancos públicos, donos da oferta monetária expansionista.
Dessa forma, a taxa de juro chinesa é muito mais barata que a americana.
Nos Estados Unidos, quem determina o crédito é o setor privado oligopolizado.
No confronto entre oligopólio estatal do crédito x oligopólio privado de crédito, na base da especulação, no cenário da financeirização econômica, o chinês ganha do americano.
No frigir dos ovos, Tio Sam perde competitividade para o dragão chinês.
Protecionismo cada vez mais radical é a alternativa trumpista impulsionada pelo discurso ultrarradical de direita nacionalista.
Petróleo nova mode internacional
A terceira e principal obsessão trumpista é o petróleo.
Voltou, no primeiro discurso depois do tiro no pé do ouvido, a dizer que as corporações de petróleo americanas serão incentivadas a furar poços de petróleo, não só nos Estados Unidos, mas em todo o mundo.
Há, aqui, um sujeito oculto sobre o qual o império se cala e, igualmente, a mídia esconde: os Estados Unidos estão com sua moeda sem lastro real, depois que encerrou o acordo EUA-Arábia Saudita, para sustentar o petrodólar.
De 1974 a 2024, durante 50 anos, o petróleo árabe se transformou na base real do dólar, garantindo-lhe sustentabilidade nas relações de trocas comerciais.
Antes do petrodólar, a base real do dólar era o ouro.
O padrão ouro durou do pós-segunda guerra mundial até 1971, governo Nixon.
Quando os aliados americanos quiseram resgatar suas reservas em ouro depositadas nos Estados Unidos, o governo americano deu sinal de alarme.
Descolou o dólar do ouro e deixou a moeda flutuar.
A taxa de juro foi a praticamente zero enquanto o império forçou a desregulamentação geral das economias capitalistas periféricas.
O resultado foi a expansão dos empréstimos em dólar no mundo, com elevação do poderio americano, de um lado, mas o excesso de oferta monetária produziu ameaças inflacionárias.
Washington, alarmado, puxou violentamente a taxa de juro, em 1989, para salvar o dólar; já fizera, em 1974, contrato com os árabes para o petróleo substituir o ouro como lastro real.
Esse quadro estrutural do poder do dólar acabou em 9 de julho de 2024 com o final do acordo do petrodólar.
Os árabes já trocam petróleo não apenas pelo dólar, mas, também, pelo yuan, novo poder monetário emergente, ao lado do petróleo.
Sem lastro real e exposta à especulação global, a moeda de Tio Sam está vulnerável.
Cresce o perigo para o império, quanto mais cresce a dívida pública americana, na casa dos 30 trilhões de dólares, para manter a indústria bélica e espacial americana, como símbolo do poder imperial.
Trump está consciente da vulnerabilidade monetária americana e disse que se acelerar a desdolarização, isso representará guerra de destruição dos Estados Unidos.
Achar petróleo, onde estiverem as reservas, por todo o globo, passa a ser objetivo central do império, porque trata-se de garantir o lastro do dólar.
Sem petróleo, o dólar, como reserva de valor, entra em crise.
Maduro e Lula, os ricos do petróleo
Recentemente, em sua residência em Mar a Lago, Trump reuniu-se com líderes de 20 grandes corporações do petróleo, para convocá-los para ampliar a capacidade de produção do petróleo, tanto nos Estados Unidos, como em todo o mundo, onde tiver reservas petrolíferas.
O petróleo é o oxigênio do dólar.
Sem o petrodólar, a moeda americana ficou sem pai nem mãe.
Tradução: o petróleo é a moeda real do mundo, no contexto capitalista atual, em que a substituição desse mineral estratégico, do qual o capitalismo depende para sobreviver, ainda não está suficientemente garantida pelas alternativas energéticas disponíveis.
Venezuela e Brasil, junto com Arábia Saudita, são o novo poder monetário, sem o qual o dólar vira papel de parede.
Nesse sentido, os líderes dos dois países latino-americanos, Lula e Maduro, são convocados pelas circunstâncias históricas emergentes, no cenário da crise do capitalismo americano, a se unirem em torno de suas riquezas mais básicas: o petróleo.
As poderosas corporações americanas do petróleo, convocadas por Trump para explorarem o produto no Brasil e na Venezuela, mediante todo tipo de incentivo prometido por Trump, são as ameaças potenciais à Petrobrás e à PDVSA, as petroleiras brasileira e venezuelana.
Trata-se de garantir aos Estados Unidos o poder do dólar que somente poderá continuar forte se tiver lastreado pelo petróleo, como aconteceu, enquanto durou o acordo do petrodólar.
Novo poder estratégico
Estrategicamente, Brasil e Venezuela, geopoliticamente, são detentores da nova moeda global, sem a qual os Estados Unidos não conseguirão ser mais hegemônicos, no plano monetário.
A nova divisão internacional do trabalho, depois do fim do petrodólar, depende do petróleo sul-americano, detido por Brasil e Venezuela.
O fortalecimento do estado brasileiro e venezuelano é um imperativo categórico kantiano, em termos geopolítico-estratégico, que os leva a pregar independência frente ao unilateralismo geopolítico americano.
A propensão expressa por Lula, na semana passada, de estreitar relações com a China, para participar da Rota da Seda, que se traduzirá, por sua vez, em fortalecimento dos BRICS, ou seja, do multilateralismo global, é o futuro que se abre na nova geopolítica sul-americana, como alternativa desenvolvimentista internacional.
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