Clara Mattei vê na China uma alternativa ao capitalismo ocidental

Professora afirma que o modelo chinês demonstra a importância do controle político sobre o capital e critica a austeridade fiscal

Clara Mattei
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247 – A economista Clara Mattei, professora da Universidade de Tulsa e fundadora do Forum for Real Economic Emancipation, afirmou que a China representa hoje uma das experiências mais relevantes de construção de uma alternativa ao capitalismo ocidental. A declaração foi feita em entrevista ao programa Roughly Chinese, no YouTube, apresentado por Yun Pong.

Autora do livro Escape from Capitalism, Mattei defendeu que o sistema chinês mostra a necessidade de uma força política capaz de disciplinar o capital privado, em contraste com o modelo predominante no Ocidente, onde governos, segundo ela, se subordinam aos interesses dos investidores.

Austeridade como ferramenta de dominação

Para Clara Mattei, a austeridade não é um instrumento neutro de equilíbrio fiscal, mas uma ferramenta política usada para preservar o capitalismo. Segundo ela, a austeridade “não funciona para equilibrar o orçamento”, mas funciona para proteger os dois pilares do sistema: o trabalho assalariado e o comando privado sobre os investimentos.

“A austeridade é a principal ferramenta à disposição dos governos capitalistas para proteger o próprio capitalismo”, afirmou.

Ela explicou que o desmonte de serviços sociais, a elevação dos juros, a privatização e a desregulamentação do trabalho servem para transferir recursos da maioria trabalhadora para uma minoria que vive de juros, dividendos e renda.

“A austeridade constantemente desloca recursos dos muitos trabalhadores para os poucos que vivem não de salários, mas de juros, dividendos e aluguéis”, disse.

“Não há capitalismo humano”

Na entrevista, Mattei rejeitou a ideia de que seria possível reformar o capitalismo por dentro. Para ela, mesmo a chamada “era de ouro” do capitalismo no pós-guerra esteve baseada em militarismo, exploração do Sul Global e repressão à autonomia dos trabalhadores.

“Não há capitalismo humano. Isso é, no fim das contas, o que quero dizer. O capitalismo humano é um mito”, afirmou.

A professora sustentou que o crescimento econômico dos Estados Unidos no pós-guerra esteve ligado à guerra da Coreia, à guerra do Vietnã e ao estímulo estatal ao complexo militar-industrial. Para ela, quando o Estado investe em recursos sociais, cria-se uma ameaça ao próprio sistema, porque trabalhadores menos dependentes do mercado poderiam se organizar politicamente.

China e o controle do capital

Ao falar sobre a China, Mattei afirmou ter ficado “chocada” ao perceber a diferença entre a realidade chinesa e a imagem difundida no Ocidente. Segundo ela, manter os cidadãos ocidentais ignorantes sobre a experiência chinesa é parte da estratégia de preservação do capitalismo liberal.

“A alternativa chinesa é uma alternativa”, disse. “A única maneira pela qual o capitalismo ocidental vai sobreviver é nos manter convencidos de que ainda estamos no melhor modelo possível e de que não há possibilidade de sair dele.”

Para Mattei, o ponto central da experiência chinesa é a existência de controles sobre o capital. “A única maneira de disciplinar o capital é impor controles de capital”, afirmou.

Ela também destacou que a China conseguiu operar dentro de uma economia global capitalista sem se submeter completamente à lógica da acumulação privada. “O que foi realmente impressionante foi ver que a sociedade é organizada segundo uma lógica que não é a lógica do capital privado”, declarou.

O papel do Partido Comunista Chinês

Mattei também defendeu que as categorias políticas usadas no Ocidente não servem para compreender a realidade chinesa. Segundo ela, o Partido Comunista Chinês tem uma relação orgânica com a sociedade e exerce uma disciplina interna que não encontra paralelo nos partidos ocidentais.

“A organização do Partido Comunista Chinês não tem nada a ver com a estrutura partidária que já experimentamos na história dos partidos na Europa ou nos Estados Unidos”, afirmou.

Para a economista, no Ocidente, partidos funcionam muitas vezes como instrumentos de carreira e trampolim para ganhos privados. Na China, segundo sua análise, a lógica é diferente.

“Se você é membro do Partido Comunista Chinês, está ali para a vida toda. É mais democrático dizer: estou comprometido e serei responsabilizado se estragar alguma coisa”, afirmou.

Ela também citou o combate à corrupção e o controle sobre grandes empresários como exemplos de uma capacidade política inexistente nas democracias liberais ocidentais.

Tecnologia para a população, não para bilionários

Outro ponto destacado por Mattei foi o uso da tecnologia na China. Segundo ela, diferentemente do Ocidente, onde a inovação tecnológica frequentemente serve para enriquecer poucos magnatas, na China os avanços tecnológicos são orientados para melhorar a vida da população.

“A tecnologia na China é, de fato, para todos. O objetivo do avanço tecnológico não é enriquecer três magnatas, mas melhorar a vida das pessoas, inclusive no campo”, afirmou.

Ela citou os sistemas de transporte chineses como exemplo de infraestrutura orientada ao bem-estar coletivo, comparando-os à decadência dos serviços públicos em países como a Itália, onde a privatização teria reduzido o transporte de um direito a um serviço precário.

Sul Global e soberania

Na parte final da entrevista, Mattei afirmou que países do Sul Global podem aprender com a experiência chinesa de construção de soberania diante das pressões do imperialismo e das instituições financeiras internacionais.

Ela criticou a dependência de países periféricos em relação ao FMI, ao Banco Mundial e ao capital financeiro internacional. Segundo ela, o Sul Global está preso em uma “armadilha da austeridade”, na qual quanto mais austeridade adota, mais dependente se torna dos interesses do capital financeiro estrangeiro.

Mattei também mencionou o Brasil ao falar do MST, que, segundo ela, desenvolve experiências baseadas em assembleias, produção coletiva e parcerias com universidades e instituições chinesas para aprimorar tecnologias de distribuição de alimentos.

“Claramente há uma solidariedade que também é material, e isso é muito importante”, disse. “A China é um país que pode fornecer esses recursos materiais que definitivamente um país como os Estados Unidos não vai oferecer, porque tem um projeto muito diferente em mente em relação à vida do povo brasileiro.”

Crítica a Trump e ao militarismo dos EUA

Ao comentar a política econômica dos Estados Unidos, Mattei mencionou cortes sociais associados ao governo de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, e afirmou que eles revelam a lógica de transferência de recursos dos trabalhadores para o complexo militar e os grandes investidores.

Ela citou cortes em programas como Medicaid e auxílio-alimentação, ao mesmo tempo em que haveria aumento de gastos militares e tecnológicos.

“Trump não é a maçã podre. Ele é apenas a aceleração de uma tendência”, afirmou.

Conhecimento e emancipação

Para Mattei, uma alternativa ao capitalismo começa também pela disputa do conhecimento. Ela criticou a economia neoclássica ensinada nas universidades ocidentais, que, em sua avaliação, oculta a exploração e apresenta o mercado como algo natural e inevitável.

“A economia neoclássica serve para esconder exatamente o que estamos dizendo. Serve para convencer você de que a chamada economia de mercado, nunca chamada de capitalismo, está melhorando a vida das pessoas”, disse.

A professora defendeu a retomada de formas coletivas de educação política, assembleias populares e experiências de democracia econômica. Segundo ela, trabalhadores precisam recuperar a capacidade de produzir conhecimento e organizar alternativas concretas à dependência do mercado.

“Produção de conhecimento e ação precisam caminhar juntas”, afirmou.

Uma alternativa em construção

Ao longo da entrevista, Clara Mattei deixou claro que não propõe copiar mecanicamente o modelo chinês para o Ocidente. Para ela, cada país precisa construir suas próprias instituições pós-capitalistas a partir de suas condições históricas, sociais e culturais.

Ainda assim, a professora sustentou que a China oferece uma inspiração decisiva em um momento de crise do neoliberalismo, crescimento da desigualdade, destruição ambiental e expansão do militarismo.

“Não se pode simplesmente importar e exportar modelos. Eles precisam crescer organicamente a partir do que as pessoas querem no território. Mas a inspiração é um elemento-chave”, concluiu.

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