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Rafael Correa critica tática de setores da esquerda de priorizar pauta identitária

O ex-presidente do Equador diz que o foco da esquerda latino-americana deve ser o combate à pobreza e à desigualdade

Rafael Correa (Foto: Reuters)

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247 - O ex-presidente do Equador Rafael Correa critica a ênfase que setores da esquerda dão aos chamados temas identitários e morais por considerar que geram divisões e desviam o foco do que é fundamental. Em sua opinião, os temas centrais da esquerda na América Latina continuam sendo a pobreza e desigualdade.As declarações foram feitas em entrevista à Folha de S.Paulo.

Rafael Correa esteve na semana passada no Brasil, onde manteve encontros com movimentos sociais. 

"É um erro colocar isso como central em nossa agenda. Sim, são problemas, têm que ser tratados com muito respeito. Mas nem sequer resolvemos os problemas do século 18, as grandes contradições, a pobreza generalizada, a desigualdade, a exploração. E nos metemos a tentar resolver e ser vanguarda do mundo de problemas de última geração. Alguns estão na fronteira da questão moral, são polêmicos. Se ser progressista é assinar esse checklist, não sou progressista. Ficamos discutindo isso, e o que, sim, gera consenso na esquerda, a pobreza, a desigualdade, deixamos de tratar. Creio, inclusive, que é uma estratégia do norte, da direita, colocar para nós estes temas conflituosos para nos distrair do essencial: que estamos no continente mais desigual do planeta. E hoje ficamos brigando sobre casamento gay, aborto em qualquer momento".

Ao se referir à situação de seu país e à perseguição judicial que sofre, o ex-presidente afirma que sua situação pessoal não é o mais importante. "O importante é resgatar o país da tragédia que ocorreu. Destruíram tudo. Tínhamos as melhores estradas da América Latina, hoje não se pode transitar. Deixamos o país como o segundo mais seguro da América Latina, 5,6 assassinatos por 100 mil habitantes. Em 2020, eram 24, viramos um dos países mais violentos da região. Acho que mais cedo do que tarde essa barbaridade [sua condenação] vai ser derrubada. Os corruptos sempre foram eles. Jamais encontraram um centavo desviado, somos pessoas de mãos limpas".

Sobre a nova onda de governos de esquerda na América Latina, Correa destaca que depois da primeira onda, em que ele foi um dos protagonistas, houve "uma forte reação conservadora a partir de 2014, que, por meios democráticos ou não, levou a direita ao poder". A segunda onda, que está em curso, é muito mais extensa, mas menos profunda". "´É uma onda muito mais heterogênea. Temos Gabriel Boric [presidente do Chile], que é pouco menos do que um social-democrata e, de repente, vira inimigo da Venezuela, não vê que está bloqueada, tem uma economia de guerra, não pode ser julgada pelos parâmetros normais. Vejo muito mais fragilidade nos governos de esquerda agora. Eram governos com muito apoio popular e maioria no Congresso, agora menos, tendo que fazer coalizões. E a oposição também tem mais experiência".

Correa também opinou sobre a situação brasileira: "Lula sempre fez um governo de coalizão. No entanto, também enfrenta adversários com mais experiência e dispostos a tudo, como já demonstraram. É difícil governar nessas condições ou ao menos fazer as coisas que desejaria fazer. Lula é um dos mais brilhantes estadistas da história da América Latina. Mas obviamente tem um caminho muito tortuoso".

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