Pelo menos um defeito não pode ser apontado em Michel Temer. Ele é absolutamente coerente no desprezo à democracia.
Depois de assumir o poder nas circunstâncias que Joaquim Barbosa chamou de encenação, tornando-se em poucos meses um dos mais impopulares presidentes da história, Temer admite que é preciso saber tirar vantagem da situação.
— “A baixa popularidade é o que tem me permitido tomar medidas que um governo que tivesse uma popularidade extraordinária, com viso eleitoral, não poderia tomar.”
É preocupante. Num regime democrático, todo governante responsável deveria temer a perda de apoio popular — pois é aí que reside o alimento essencial para seus atos, a base social para a realização de seu programa e seus projetos. O nome disso é soberania popular, prevista no artigo 1 da Constituição.
Todo o resto — declarações de empresários, elogios da mídia, discursos no Congresso, campanhas de marketing — nada significa num governo sem apoio do povo. São enfeites que apenas demonstram fraqueza, incapacidade de promover o bem comum, vontade de enganar.
Pessoas que acreditam nos valores de uma democracia sabem que os sinais de impopularidade sempre são um sintoma de que alguma coisa está errada e precisa ser corrigida. Pode levar tempo, quem sabe não seja para amanhã nem depois. Mas são o sinal definitivo de que determinada situação não pode continuar do que jeito que está. Em vez de falsas espertezas, o que se recomenda, para início de conversa, é humildade.
Numa conjuntura na qual 63% da população quer sua renúncia para a realização de eleições diretas, é pura falta de respeito um presidente sugerir que a rejeição do povo chega a ser útil para tocar medidas que considera “fundamentais”, entre as quais a reforma da Previdência e a PEC dos gastos. Há duas explicações possíveis para isso, nenhuma benigna.
Pela hipótese elitista, Temer considera que a população brasileira não tem capacidade para saber sabe o que é melhor para si própria.
Pela hipótese autoritária, ele acha que, certa ou errada, a opinião da população não tem a menor importância nas decisões de Estado.
Em qualquer caso, é uma postura de quem não tem compromissos reais com a população nem acredita no papel dos brasileiros para construir o futuro de seu país. Apenas repete o comportamento — lendário, dizem os estudiosos do reino animal — do avestruz, aquele animal que enterra a cabeça na areia em hora de perigo. Ao demonstrar uma arrogância incompatível com quem está devendo imensas explicações a população — sobre o desemprego, a recessão, os Geddeis, Padilhas, Jucás, ele próprio — Temer apenas constrói o momento avestruz de um governo insustentável.
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