O único dia em que eu chorei por um fato político foi 25 de abril de 1984.
Eu estava na Câmara dos Deputados, em Brasília, no momento em que a emenda das Diretas-Já foi derrotada no voto, depois de uma campanha histórica que percorreu as capitais e o interior do país.
Eu saí dali derrotado como todos os brasileiros que não suportavam mais a ditadura militar.
Foram necessários mais nove meses até a ditadura ser derrotada, também no voto, na mesma Câmara dos Deputados, a 15 de janeiro de 1985, com a eleição de Tancredo Neves presidente da República, embalada numa campanha épica que uniu o país.
Tancredo não conseguiu assumir, baixou hospital, abrindo a vaga para seu vice, José Sarney, aliado de toda a vida da ditadura que acabara de sair de cena.
A decepção foi traduzida dessa forma pelo então senador Fernando Henrique, em conversa com o ministro da Justiça Fernando Lyra durante o velório de Tancredo, morto a 21 de abril de 1985:
– Sarney não vai fazer nem 2% do que Tancredo faria.
Eu ouvi a frase, protegido por uma coluna de mármore do Palácio da Liberdade e a transcrevi na reportagem que fiz para a revista “Senhor”.
Quando leu o trecho, como fazia com todas as matérias antes de publicá-las, o dono, editor e guru Mino Carta subiu nas tamancas e me desancou:
– A Nova República mal está nascendo e você já quer começar a criar intrigas?!
Cortou a frase com seu implacável lápis vermelho.
Eu fiquei puto com aquilo, censurado pelo editor da revista justamente quando a censura caía (mas ainda sobreviveria, tanto é que o “Je vous salue” de Godard foi proibido por Sarney), mas engoli em seco porque sabia, no fundo, que tudo deveria ser feito para que a Nova República desse certo, a democracia tinha que ganhar da ditadura.
Nós achávamos que todos aqueles males produzidos pela ditadura – salários baixos, miséria, censura, inflação, atraso, dependência externa, prisões arbitrárias, tortura, educação sofrível, subdesenvolvimento, corrupção – seriam exterminados juntamente com ela.
Entre ontem e hoje, ao ler e ouvir os depoimentos de Marcelo Odebrecht e de outros delatores da sua multinacional que cresceu graças às relações espúrias com os principais políticos do país, pensei duas coisas.
A primeira é que todos os analistas políticos e eleitores que achavam que os maiores partidos do Brasil eram PMDB, PSDB e PT estavam enganados: o maior partido do Brasil é o PO – Partido da Odebrecht.
A segunda é que a Nova República acabou: seus principais representantes estão sob investigação.
E os partidos – PMDB, PSDB e PT – que a construíram estão feridos.
Não sei o que vem aí.
P.S.: Recentemente, Mino reconheceu que se arrependeu da censura à frase de Fernando Henrique.
❗ Se você tem algum posicionamento a acrescentar nesta matéria ou alguma correção a fazer, entre em contato com redacao@brasil247.com.br.
✅ Receba as notícias do Brasil 247 e da TV 247 no Telegram do 247 e no canal do 247 no WhatsApp.
Apoie o jornalismo independente do 247:







Participe da discussão