A morte de Guila Flint, em 26 de março, priva os brasileiros de uma jornalista de primeira linha. Guila era uma das raras profissionais brasileiras que fazia a cobertura do Oriente Médio com conhecimento em profundidade da vida local e interlocução direta com personagens principais.
Era capaz de combinar informações confiáveis com análises competentes sobre uma tragédia de alcance mundial, como você pode comprovar aqui, no vídeo de uma entrevista de julho de 2014, ao programa Espaço Público. Assista aqui.
Nascida em São Paulo, numa família de judeus poloneses, Guila era pouco mais do que uma adolescente quando participou das lutas dos estudantes brasileiros contra a ditadura. Em 1968, quando terror do AI-5 tornou-se visível, os pais a despacharam para Israel, onde acabou construindo sua vida.
Ela desembarcou na região país pouco depois da Guerra dos Seis Dias, quando a política do Estado de Israel deu início a uma guinada colonial, usando a força militar bruta para conquistar territórios e tentar submeter a população palestina, num processo que, com avanços e recuos, prolonga-se até hoje.
Guila tinha uma opinião consolidada a favor dos acordos que deram origem ao Estado de Israel, e que previam a criação de dois Estados e a partilha da Palestina em áreas iguais, inclusive nas preciosas reservas de água. A partir desse ponto de vista, empregou a voz rouca de fumante inveterada para desafinar o coro de contentes que apresenta os conflitos da região pelo olhar conformado e interesseiro da diplomacia norte-americana.
Levando uma existência confortável mas incrivelmente modesta num pequeno apartamento em Tel Aviv, fazia questão de ouvir os vencidos, expor seus argumentos, explicar por que seus direitos devem ser respeitados. Não chega a surpreender, portanto, que sua vida profissional tenha seguido um percurso previsível. Depois de ter sido correspondente de grandes jornais e emissoras do país, seu último endereço profissional era a BBC Brasil, que veicula uma postura plural sobre a região, impossível de encontrar na maioria dos jornais e revistas do país.
No dever indispensável de repórter, fazia visitas frequentes a áreas rebeladas, onde meninos chegavam a enfrentar o Exército de Israel de pedras na mão, nas célebres intifadas. Também costumava ir a Gaza, aquele labirinto de ruas estreitas e famílias amontoadas, que tempos depois seria bombardeado por caças da aviação israelense. Conhecia personagens — de um lado e de outro — de áreas palestinas que se tornaram alvo dos programas de expansão de sucessivos governos de Israel.
Morta aos 63 anos, Guila publicou dois livros sobre a região: “Israel Terra em Transe — Democracia ou Teocracia” e “Miragem da Paz — Israel e Palestina.”
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