Por Florestan Fernandes Júnior, para o Jornalistas pela Democracia – Apesar dos sorrisos para a foto, esta não foi uma entrevista fácil e alegre. Na época, início dos anos 90, eu era repórter da TV Manchete, a segunda emissora em audiência do país.
Legenda da foto: Carlos Chagas, Denis Rivera, Fidel Castro e Florestan Fernandes Jr.
A ideia de Fidel era aproveitar a entrevista para quebrar o gelo diplomático com o governo Collor. Segue o diálogo que quase azedou a entrevista, pergunto:
– Comandante, como o senhor avalia a violência cometida pelo exercito chinês contra os jovens estudantes na praça da Paz Celestial em Pequim?
Fidel – Vocês do ocidente estão mal informados, o que houve na China foi a agressão de jovens contra os soldados.”
Retruco: Se os jovens fossem pra rua em Cuba o senhor reprimiria?
Fidel – Reprimiria.
– Mesmo se todo o povo for pra rua contra o regime?
Fidel – Reprimiria. Um revolucionário tem o dever de defender a revolução sempre, mesmo estando sozinho. Quando fizemos a revolução éramos algumas poucas dezenas de pessoas. Temos a obrigação de defender a revolução, mesmo estando sozinho.
Entrevista encerrada, o comandante se despede e vai embora. Minutos depois Fidel retorna e pede para regravar a entrevista.
Argumentei que não seria necessário, que tudo tinha ficado muito claro. Fidel insistiu mas com minhas negativas acabou desistindo e foi embora contrariado. A entrevista teve péssima repercussão no Brasil e em outros países onde foi exibida. Da noite pro dia tinha virado persona non grata, justo eu filho de um marxista-leninista.
O tempo passou e um dia voltei a Cuba. Fui fazer uma reportagem para mostrar o sucesso da medicina cubana. Com esse documentário minha equipe ganhou um importante prêmio de jornalismo. Em 1998 desembarco em Havana como turista e fui recebido ainda no aeroporto por um membro do partido comunista que me entrega um presente de Fidel. Uma garrafa de Rum cubano de 21 anos.
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