Pagava as contas com notícia. Primeiro no rádio, depois na TV. Fernando – vamos chamá-lo assim – era repórter.
Desde o início da carreira, mostrou duas virtudes muito particulares: não tinha medo de perguntar e não tinha vergonha de perguntar de novo quando não entendia. Dizia para si mesmo: “se eu não entendi pode ser que outras pessoas também não compreendam. E elas querem se informar.”
Fernando entrevistava uma dona de casa, um louco ou um bêbado, com a mesma naturalidade com que fazia perguntas a Ulysses Guimarães ou Fernanda Montenegro.
Com onze anos de profissão, pai de filho e filha, recebeu um convite:
– Que tal trabalhar numa TV maior, com mais alcance e mais investimento no Jornalismo?
Antes de dizer o sim, ouviu a ressalva:
– Só que a vaga não é de repórter, é de editor.
Fernando não escondeu a vaidade.
– Peraí, vou largar o vídeo e me esconder na redação?
– Você vai ser sempre jornalista, Fernando. Só muda a função. O editor é quem seleciona o melhor da reportagem, é quem bota as notícias no ar. Sem ele não tem jornal.
– Ainda não entendi direito.
– Pensa num time de futebol, você é o beque, bate um bolão. Só que o técnico precisa é de um ponta-esquerda.
Fernando pediu a opinião do pai, ouviu amigos e respondeu.
– Vou ficar onde estou, muito obrigado.
– Que pena.
Aí, Fernando soube que na TV pública em que trabalhava, o principal telejornal ia acabar e parte da redação seria demitida.
O repórter engoliu a vergonha, o medo de ouvir um não e ligou de volta.
– Ainda dá tempo de mudar de ideia?
– Ô meu ponta-esquerda, é claro. Passa aqui amanhã e traz os documentos. Você vai ser editor de texto do maior telejornal do Brasil.

A promessa de uma ambientação para conhecer os colegas e o telejornal foi cumprida, mas era pouco para o aprendiz. A primeira reportagem que editou – uma simples blitz do Procon, sem grandes consequências, foi desastrosa.
A repórter cumpriu seu papel e gravou tudo o que era necessário, mas Fernando se atrapalhou com as fitas, se perdeu nas anotações. Faltava pouco para o jornal entrar e nada da matéria ficar pronta.
A editora-chefe interveio, outro editor socorreu e, sob muita tensão, a primeira reportagem editada por Fernando ia ao ar. A segunda, a terceira e muitas outras também foram dificílimas, sofridas.
Na sessão de terapia, Fernando chorou com a melancolia dos arrependidos. “Como repórter eu era solução, como editor virei problema.”
Da cadeira de couro, a doutora baixou os óculos e cruzou as pernas.
– Calma lá, hoje você é o último da fila. Daqui a pouco chega alguém mais novato e você avança. Por enquanto, está aprendendo. Um dia será professor.
Ansioso, como 100% dos jornalistas, ele não via os progressos que outros já percebiam. Numa segunda-feira, a chefe da equipe chamou Fernando dobrando o dedo indicador. Ele pensou no pior, mas lá dentro da sala envidraçada ouviu que uma nova e inexperiente editora iria cobrir férias e que ele devia ajudá-la.
Com cinco meses de casa, a primeira promoção! Fernando passava a ser “o penúltimo da fila.”
Até a doutora comemorou.
O tempo cumpriu sua missão, os colegas ajudaram e logo ele avançou para antepenúltimo. Depois, passou a chefiar outro jornal e daí ascendeu para projetos ainda mais desafiadores. “O ponta-esquerda”, enfim, se tornara um dos craques daquela seleção.
A ideia da posição na fila nunca o abandonou. Noite dessas, não havia mais ingressos para um show no Sesc. Fernando e a namorada arriscaram ir para o guichê em busca de uma desistência. Havia 5 pessoas na frente e, de novo, ele era o último da fila. Pessimista, achou a espera inútil. Então outro casal chegou. E mais um. E outro. Já eram 16 pessoas atrás dele e da namorada. A surpresa: todos entraram.
Passou a perceber que era assim também na fila do pão, na fila da vacina. Nas filas da vida, o que contava para ele era não ser o último.
De olho na boa forma, se matriculou no Pilates. Só não entendia as orientações das professoras: “desenrola a coluna”, “posição de Frog”, “cresce os ombros”, “estica a ponte”. Diante do estranho dialeto, copiava o que os colegas faziam, entortando o pescoço.
Anteontem, um homem corpulento se apresentou e a professora chamou Fernando.
– Vou dar uma atenção ao Valdir. Ele não sabe nada, está começando hoje. Faça suas séries sozinho.
Fernando, de novo, o penúltimo da fila. Fernando, de novo, promovido.
No vestiário, encontrou o olhar curioso de Valdir, o último da fila. Fernando “expandiu as costelas” e saiu em largas passadas.
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