Estamos no início da década de 1990. A atmosfera enfumaçada e o ruído nervoso dos teclados das máquinas de escrever indicam: falta pouco para o telejornal do horário nobre.
Repórter e editor sentam lado a lado. Na frente deles, uma folha branca aguarda, impaciente, as primeiras letras.
Isabel, mulher elegante e inteligente, ainda tem no blazer bege cheiro e cor de fuligem. Marcelo, jovem editor, conhecido pela agilidade, propõe a primeira frase.
– O incêndio começou às quatro horas da tarde.
– Vamos começar desta maneira?
– Sim, é mais direto e informativo.
– Não dá para ser mais criativo?
– Presta atenção: esse é o jornal mais tradicional da televisão brasileira, não vamos inventar.
– Por que não?
– Isabel, sou o editor e sei o que a chefia prefere.
– E eu sou a repórter e te garanto, nosso papel também é surpreender.
– Isabel, não complica já são mais de cinco horas.
– Eu tenho a imagem da dona Geralda e ela grita: “Socorro, me ajuda aqui!”. Vamos começar com ela. É a personagem da história!
– É mais garantido dizer: o incêndio começou às quatro horas da tarde. A frase já informa a hora da tragédia e que é de fogo que vamos falar.
Isabel toma café morno da garrafa térmica, aperta o copo descartável na mão e joga no lixo, com cara de quem bebeu e não gostou.
– Marcelo, outra ideia: e se a gente abrisse a reportagem com a coluna de fumaça e dissesse: “perigo no céu preto do Tucuruvi, zona norte de São Paulo.”

– Aí, a família que assiste em Salvador troca de canal e os gaúchos se perguntam: o que isso tem a ver com a minha vida? Temos que falar com o país todo. Se a audiência cai quem leva a bronca sou eu.
– Não vou entrar nessa discussão dos números da audiência, mas te digo que estas palavras não me tocam. Não queria botar minha voz nessa descrição que mais parece um relatório.
– Assim você me ofende, Isabel.
Isabel suspira. Marcelo abre a gaveta.
– Vamos fumar o cigarro da paz? Sei que você gosta de Marlboro, mas fumo Luis XV.
Isabel traga fundo e ajeita o cabelo Chanel.
Eunice, chefe de redação, apaga seu Hollywood e avisa, enquanto dobra o Jornal da Tarde.
– Gente, a reportagem do incêndio caiu. O governo baixou um novo pacote econômico e o noticiário será todo de Brasília.
– Nããão, Isabela se afunda na cadeira.
Eunice continua.
– Marcelo você vai ajudar nesta cobertura de Economia. Liga já para Brasília.
Marcelo obedece, também assiste as primeiras imagens, ouve a fala do presidente e começa a escrever.
– O anúncio oficial foi às 4 horas da tarde…
Duas horas depois, Isabel ouve um recado na secretária eletrônica de casa. É Marcelo.
– Volta para redação agora. A reportagem do incêndio vai entrar no jornal do fim da noite. Eu já avisei aqui que tenho que ir embora e não poderei editar. É aniversário do Fernando. A Eunice disse que tudo bem e que é para você escrever do seu jeito. Voa pra cá.
Isabel acelera a Belina a caminho da TV. As possíveis primeiras frases da reportagem ressuscitada cutucam seu cérebro.
É aí que a Marginal Tietê para, uma carreta entalou embaixo da ponte das Bandeiras. Ela vai até um orelhão e avisa aos colegas na TV. A resposta da redação é imediata e ainda mais nervosa.
– Esquece o incêndio, você vai entrar ao vivo com o acidente em 5 minutos.
Os colegas jornalistas me confirmam que com exceção dos cigarros e das máquinas de escrever pouco mudou nas redações nesses últimos trinta anos.
Ainda bem.
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