Por Florestan Fernandes, do Jornalista pela Democracia – Na terça feira, dia 26 de março, enquanto Bolsonaro curtia com a mulher o filme “Superação – O Milagre da Fé”, o vice Hamilton Mourão encarava uma sessão bem indigesta com líderes empresariais na Fiesp. A federação – que ainda guarda na sua sede patos e sapos que desfilaram na Avenida Paulista nas manifestações contra Dilma Rousseff, agora tem dificuldade para carregar o estandarte do sanatório mental que tremula na capital do país.
A tragicomédia às vezes nos leva a boas gargalhadas, como quando o vice afirmou para o PIB paulista que Bolsonaro é um estadista. Imagino a cara dos 500 empresários que estavam no auditório Todos eles sabem, e nunca se preocuparam com isso, que o “mito” é um produto das fake news e, provavelmente, da CIA. Está longe de ser um estadista, assim como Mourão está longe de ser um democrata. Mas é o que a elite plantou e está colhendo agora: goiabas, bananas e muitas laranjas.
Está claro que, da dupla, Mourão é o que aparenta maior preocupação com a falta de planejamento e de rumo do clã que governa o país. No encontro, Mourão fez promessas que não pode garantir neste momento, como reduzir a carga tributária, aprofundar as reformas e mudar o pacto social estabelecido pela Constituição de 1988.
Ressuscitando a política econômica da ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher (1979/90), considerada moderna por alguns e trágica para os trabalhadores e para setores importantes da economia, Mourão prometeu ampliar as privatizações, inclusive de áreas sensíveis como a saúde e a educação. O discurso, que está mais para promessas de campanha, deve ter ampliado ainda mais a ira do guru do bolsonarismo, Olavo de Carvalho. Ele, que já chegou a chamar Mourão de “idiota”, demonstra preocupação com um possível puxão de tapete dos generais que cercam Bolsonaro. Motivos para isso não faltam. Afinal, o prestígio de Bolsonaro está em baixa, o governo está paralisado e em crise com o Congresso e o STF. Como na véspera de 31 de março de 1964, o general vice-presidente saiu da Fiesp para um jantar com 30 empresários na casa de Paulo Skaf. Desse rega-bofe pode sair uma bela indigestão para a nossa democracia.
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