Hoje não trago reflexões, mas uma história.
Meu pai, como já escrevi por aqui, era uma pessoa complexa, cheio de proibições absurdas, que não se constrangia em dizer “não” a pedidos simples, sem preocupar-se em explicar o “porque” dos tantos “nãos”.
Mas, para surpresa de quase todos – ele não me surpreendeu – ele disse “sim” a uma das minhas irmãs, Roberta disse a ele: “- Pá, eu preciso ver um jogo da Ponte” (eu sempre considerei uma covardia o uso do verbo “precisar” pelas minhas irmãs, afinal, que pai resiste a ele?).
Fomos – Roberta, meu pai e eu -, ver a Ponte contra o ABC, cujo técnico era Valdemar Carabina, que fez história jogando pelo Palmeiras e serviu à seleção antes da Copa da Inglaterra.
O jogo foi a noite, o estádio estava lotado, quase dezenove mil torcedores e mais de dois mil menores foram ao campo ver Carlos (que, assim como Oscar, já havia sido convocado pela seleção principal), Jair, Oscar, Polozzi e Odirley; Wanderley, Marco Aurélio e Dicá; Lucio, Dario (Dadá Maravilha, campeão do mundo em 1970) e Tuta.
O ano era 1977 e para mim, um menino de treze anos, um dos principais interesses era a Ponte Preta. O time vinha de uma campanha espetacular no Campeonato Paulista, conquistou o vice-campeonato, fez a melhor campanha nos três turnos, mas foi vencida pelo regulamento e pelos interesses em tirar o time do Parque São Jorge da fila.
No brasileirão do ano anterior a Ponte já havia feito ótima campanha, terminou em sexto lugar entre 54 clubes. Mas em 1977 os nossos criativos dirigentes alcançaram um recorde: o campeonato começou com sessenta e dois clubes.
A Macaca ia bem, chegava ao sexto jogo com três vitórias, um empate e vinha de duas vitórias consecutivas, uma no Castelão contra o Ceará por 1 x 2, com gols de Parraga e Jair Picerne e outra, apenas quatro dias depois, no Majestoso contra o Corinthians, pelo mesmo placar, com gols de Marco Aurélio e Zé Maria, o irmão do Tuta, que fez contra.
Depois de vencer o time de Vladimir, Vaguinho e Zé Maria no dia 30 de outubro, em 2 de novembro, a Ponte entrou em campo contra o time da capital do Rio Grande do Norte.
A Roberta é uma mulher muito bonita, mas aos doze anos era uma menina lindíssima, o que fez meu pai a tomar cuidados especiais como: escolher um jogo praticamente de torcida única, chegar no estádio quase no momento do apito do juiz; sentar-se na vitalícia e ao lado de seus amigos, os quais a Ponte transformou em “nossos”.
Chegar em cima da hora fez com que perdêssemos o jogo preliminar; um time misto da Ponte venceu a Gazeta Esportiva; a macaquinha “meteu cinco a zero nos caras”, como nos disse eufórico um dos amigos do meu pai.
A noite daquele novembro de primavera estava perfeita, a torcida apoiou o time os noventa minutos, pudemos ver um gol de pênalti do Dicá e um gol de cabeça do Oscar, por quem Roberta era “apaixonada”, assim como muitas adolescentes do final dos anos 1970 e início dos anos 1980.
Ponte 2 x 0 para alegria de tanta gente.
Imagino que tenha sido uma noite inesquecível para a Roberta, mas sei que foi muito especial pela o meu pai, tenho gravada na memoria a sua expressão de felicidade de poder dar à minha irmã aquela experiência.
E, para coroar a noite, meu pai deu uma explicação genial a uma observação ingênua da menina de doze anos. Ela, de mãos dadas com meu pai perguntou: “- Pá, aqui dentro é tão claro, tão iluminado… Nem parece que é noite, não é?”.
Ele respondeu: “Deus criou o céu e a terra, que antes era sem forma e vazia, um lugar em que trevas cobriam a face do abismo, e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas, mas quando Ele disse: ‘Faça-se a Luz’, houve luz, com tal força e de tal forma que foi possível separar a luz das trevas”, e completou, “Nem todos sabem o local exato onde Deus disse “Fiat Lux”, acredite, foi aqui no Majestoso, esse é o local exato.”, noutras palavras, tudo quanto vale a pena está ali, na Praça Doutor Francisco Ursaia, 1900, no Bairro Ponte Preta em Campinas; nossos amigos se entreolharam, não riram, nem o desmentiram.
Passados alguns anos descobri que meu pai não estava brincado conosco, pois ao ler Gênesis encontro a confirmação; depois de criar a luz “Deus viu que a luz era boa, e separou a luz das trevas”; luz, criação divina, segue ali no alto da colina, na Praça Francisco Ursaia, já as trevas estão do outro lado de córrego que corta a avenida Princesa D’Oeste.
Essa é história.
e.t. no jogo seguinte, também no Majestoso e com Zé Duarte no comando, a Ponte venceu o Fortaleza por 3 x 0 diante de mais de quinze mil torcedores, com dois gols de Marco Aurélio e um do Dario e, como fui sozinho, cheguei cedo ainda vi um time misto da Ponte “meter” 6 x 0 no Grêmio Unidos do Taquaral.
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