Bolsonaro é cínico ao declarar que não há fome no Brasil, diz ex-ministra

"É a forma cínica de justificar estar desmontando as políticas de combate à fome, como foi o Programa de Aquisição de Alimentos, o programa de cisternas, como é o desmonte das políticas de agricultura familiar. A forma cínica de desmontar é dizer que a fome não existe mais”, diz a ex-ministra Tereza Campello sobre a declaração de Jair Bolsonaro de que não há fome no Brasil

Brasil de Fato - A primeira palavra que Tereza Campello encontra diante da declaração do presidente Jair Bolsonaro de que não há fome no Brasil, é a de “choque”. Doutora em economia e ex-ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome no governo de Dilma Rousseff, ela afirma que, ao se deparar com os dados da fome no país, Bolsonaro ou qualquer outro governante, deveria dizer que vai trabalhar para acabar com essa grave situação, em vez de negá-la.

“É a forma cínica de justificar estar desmontando as políticas de combate à fome, como foi o Programa de Aquisição de Alimentos, o programa de cisternas, como é o desmonte das políticas de agricultura familiar. A forma cínica de desmontar é dizer que a fome não existe mais”, afirma Tereza, em entrevista aos jornalistas Marilu Cabañas e Glauco Faria, na Rádio Brasil Atual. No ministério, ela coordenou o plano Brasil sem Miséria, responsável por tirar 22 milhões de brasileiros da extrema pobreza.

A ex-ministra lembra que quando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tomou posse, em 2003, cerca de 9% da população brasileira vivia em situação de sub-alimentação. Esse percentual caiu para quase 1% na ocasião do impeachment de Dilma Rousseff. “Tem várias formas de se tratar a fome. Tem pessoa que não come nada e tem pessoa que come farinha com água. Isso não é suficiente e a gente trata como fome, sim. No caso das crianças, é gravíssimo. Uma criança que não se alimenta direito já tem afetado todo o seu desenvolvimento físico e mental.”

Tereza explica que enfrentar a fome não é como solucionar problemas de infraestrutura, quando a construção de uma ponte, por vezes, já resolve a situação. “As pessoas comem e precisam continuar comendo, três vezes por dia, de preferência, e 365 dias do ano”, afirma, defendendo que políticas sociais têm que ter continuidade, caso contrário, regridem. E cita como exemplos a volta do sarampo, da mortalidade infantil e outras doenças que se consideravam superadas no Brasil.

Para ela, tão chocante quanto a fala de Bolsonaro foi a declaração do ministro da Cidadania, Osmar Terra, afirmando que o problema da fome no Brasil tem o mesmo percentual da Noruega. “É outro absurdo. A Noruega tem 5,2 milhões de habitantes, e o Brasil tem 5,2 milhões de pessoas em situação de sub-alimentação. Então 2,5% na Noruega são milhares de pessoas, no Brasil são milhões”, explica Tereza, lembrando que esse dado brasileiro é de 2017, e é provável que já tenha aumentado, devido ao aumento do desemprego.

“O quadro promete piorar muito e não vemos perspectiva de alteração. O Brasil está minando o que poderia ser a forma de retomada do crescimento econômico, que é garantir renda e emprego para a população. Sem emprego, sem renda, sem aposentadoria, restringindo as políticas sociais, a possibilidade do país superar a situação de estagnação e crise econômica, é nenhuma.”

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