Especialistas em saúde pública defendem impeachment de Bolsonaro

Nunca foi tão necessário defenestrar um mandatário. Assim entendem alguns dos mais renomados especialistas em saúde pública do Brasil, ouvidos pelo Brasil 247

Bolsonaro e vacina
Bolsonaro e vacina (Foto: Reuters)
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Por Paulo Henrique Arantes, para o 247 - O impeachment de Jair Bolsonaro ganha as ruas e as janelas mediante carreatas e panelaços. Parece começar a rolar a bola de neve que atropelará um governo destruidor da democracia e, nesse contexto, daquilo que o país construiu de melhor desde a redemocratização – um sistema descentralizado e universal de saúde. O medievalismo do presidente da República e a absoluta incompetência do ministro da Saúde têm potencial para comprometer o funcionamento do consagrado Plano Nacional de Imunização e tornar a vacinação contra a Covid-19 um fiasco. Nunca foi tão necessário defenestrar um mandatário.

Assim entendem alguns dos mais renomados especialistas em saúde pública do Brasil, ouvidos pelo Brasil 247.

“Tenho a expectativa de que o impeachment ocorra, como a essa altura também esperam milhões de brasileiros e brasileiras com alguma consciência política”, afirma Naomar de Almeida Filho, ex-reitor da Universidade Federal da Bahia e professor titular de Epidemiologia da mesma escola. “Mas, infelizmente, os sistemas político e judiciário, corrompidos e cúmplices, junto com uma elite insensível e gananciosa, estão à espreita para cobrar seu preço. Então posso dizer que precisamos renovar a esperança e não ficar só na torcida. É trabalhar, militar, batalhar para que o impeachment ocorra o mais cedo possível”, concita.

Almeida Filho é dono de uma visão que sugere pessimismo, mas que na verdade é de extremo realismo. Não há razão para crer que a crueldade do atual governo, demonstrada em tantas ocasiões, arrefeça durante o processo de vacinação.

“Mantendo-se o governo Bolsonaro, vamos vacinar somente os grupos da população que têm alguma relevância para o projeto político neoliberal. Quando os trabalhadores de saúde, os chamados grupos de risco, idosos, hipertensos e diabéticos, os militares e os magistrados, os trabalhadores de atividades ditas essenciais e setores e grupos apaniguados estiverem imunizados, quem garante que a maioria pobre e desassistida da população terá acesso a vacinas ou a outros tratamentos efetivos que eventualmente apareçam?”, indaga o epidemiologista. 

E prossegue: “O cenário triste pode ser o seguinte: independentemente de regime político, os outros países do mundo vão controlar a pandemia até o fim do ano e, com Bolsonaro, Pazuello, Ernesto Araújo e outras figuras lamentáveis, o Brasil vai ser incapaz de fazê-lo, tornando a Covid-19 em mais uma endemia”.

Professor titular sênior da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, Paulo Capel Narvai, afirma que “Bolsonaro fez quase tudo que podia para que o SUS não pudesse operar como um sistema de saúde capaz de controlar a pandemia em nossa população”.

“Fez e continua fazendo”, enfatiza, apesar de uma postura oficial falsamente proativa neste momento, quando boicotar abertamente a vacinação significaria o enterro político definitivo.

Para Narvai, a amenização da postura antivacina pelo presidente “é uma mudança que visa a tentar neutralizar o desgaste político derivado de sua posição original. Mas seu descaso prejudicou muito as ações e operações necessárias para que o SUS pudesse exercer sua missão de proteger saúde da população. O atraso colocou o Brasil em dissintonia com os demais países, e isso vem chamando a atenção de todo o mundo, desgastando muito o governo”.

“O que atenua a situação é que o SUS é um sistema de saúde compartilhado entre os entes federativos. Assim, por mais que o Governo Federal se revele inoperante e venha cometendo erros crassos, as ações de estados e municípios estão fazendo a diferença para melhor”, pondera o professor da USP. E vai além: “Há hoje amplo reconhecimento de que o governo vem implementando uma política genocida e cresce o clamor pelo impeachment. Mas esse clamor ainda não está generalizado na população. Se e quando isto ocorrer, Bolsonaro sairá e esse será um passo dos mais importantes para superar a crise da pandemia no Brasil, pois será removido o principal fator do seu descontrole”.

Membro da Sociedade Brasileira de Infectologia e professor do Departamento de Clínica Médica da Universidade Federal do Triângulo Mineiro Rodrigo Molina chama o ministro Eduardo Pazuello de “embuste” e diz que o governador de São Paulo, João Doria, “não é nenhum santo”. Mas reconhece que a atuação de Doria em busca da vacina forçou o Governo Federal a se mexer.

“Na hora em que algumas pessoas começam a ser vacinadas e outras não, a população começar a se manifestar. A gente já viu panelaços nesta semana. Independentemente de termos ou não Bolsonaro, eu acredito que a vacinação deva chegar à sua meta estimada. Talvez não chegue a 100% da população – vemos inclusive entre profissionais da saúde algumas pessoas com medo da vacina”, prevê Molina.

Não há cientista, pesquisador, acadêmico ou professor da área de saúde pública que veja com maus olhos o possível impeachment de Jair Bolsonaro. Isso está expresso em inúmeros manifestos e abaixo-assinados.

Deyse Ventura, professora titular de Ética da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, não vê chance de a vacinação contra a Covid-19 ser exitosa “caso persista na estratégia de disseminação do vírus que (o presidente da República) adotou, mantendo a propaganda contra a saúde pública como tem mantido”.

Em contrapartida, Ventura ressalva que o impeachment de Bolsonaro não será, sozinho, garantia de sucesso da vacinação: “Do ponto de vista da saúde pública, a questão não é pessoal. É uma questão de Estado: precisamos de uma coordenação nacional de resposta à pandemia que queira conter a propagação da doença. Não é o caso hoje”.

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