Chipre: pequeno demais para abalar os EUA

Claro que devemos nos importar com o que acontece com o povo de Chipre que provavelmente terá alguns anos duros pela frente. Mas como investidores, não acho que faz diferença

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Quando parecia que a Europa não ia mais atormentar o mundo com seus problemas, a pequena ilha de Chipre nos lembrou de que não era bem assim. O Chipre é importante? Devemos nos importar com o que acontece por lá? Claro que devemos nos importar com o que acontece com o povo de Chipre que provavelmente terá alguns anos duros pela frente. Mas como investidores, não acho que faz diferença.

O Chipre representa não mais do que 0.5% do PNB da zona europeia. O pequeno país de 800 mil habitantes tem um sistema bancário grande, desproporcional ao tamanho de sua economia. A causa disto são os depósitos nos bancos feitos por milionários não residentes, especialmente russos que não querem pagar impostos. O Chipre, assim como outras ilhas pequenas, é um paraíso fiscal e talvez por isto os ministros da Fazenda da Europa estão jogando duro. Além do mais, apesar dos depósitos serem elevados, o problema não é tão grande. A Grécia teve um resgate de mais de 170 bilhões de euros e o Chipre precisa de menos de 10% desta quantia, 10 bilhões de euros. Os problemas do país derivam dos seus negócios com a Grécia, dos empréstimos feitos a empresas e indivíduos.

Na semana passada, o mercado de ações foi influenciado pela crise e interrompeu a alta que vinha ocorrendo desde o fim do ano. No fim de semana foi negociado um pacote de ajuda que vai implicar em perdas para correntistas com depósitos de mais de 100.000 euros e vai agravar a atual recessão.

Mesmo se a crise não fosse resolvida, não acredito que iria impactar os Estados Unidos. Teria sido outra ameaça, como o sequestro, que acabou não significando muita coisa para o mercado, embora tenha prejudicado os indivíduos que perderam seus empregos.

De fato, o mercado acionário americano nos primeiros três meses do ano foi excelente para os investidores. O índice Dow Jones ganhou mais de 10% e o S&P tem flertado como 1565, o recorde atingido em outubro de 2007. Na segunda-feira, por volta de 10h, faltava um ponto para o índice chegar lá, mas o descontentamento como o "pacote" para o Chipre foi a explicação encontrada para a posterior queda do índice.

Os dados da economia têm sido na maioria bons, embora o consumidor esteja enfrentando algumas dificuldades como o aumento no imposto sobre a folha de pagamento e o sequestro, que implicou/implicará em desemprego. Isto, entretanto, poderá ser contrabalançado pelo aumento de renda, e pelo aumento no preço de ativos como casas e ações, que melhorou a saúde financeira dos consumidores. O FED vai prosseguir na politica acomodativa ao mesmo tempo em que, segundo a minuta da última reunião, está vendo melhorias na economia.

Entretanto, mesmo com bons fundamentos, o mercado não se movimenta sempre só para cima; sempre haverá períodos de realização de lucros. A questão é saber se no longo prazo a tendência é otimista ou pessimista. Eu ainda sou otimista e ademais, não vale a pena lutar contra o FED. Portanto, em vez de tentar adivinhar os movimentos do mercado no curto prazo, escolha alguns temas e aposte neles. Tenho falado há algum tempo da recuperação do mercado imobiliário. O ITB, - ISHARES DOW JONES US HOME CONSTRUCTION INDEX FUND – a ETF do setor de construção aumentou 62.5% em um ano e 6.3% em 2013.

Além dos bons indicadores, os políticos não têm atrapalhado muito e o próximo embate perigoso deverá se dar em algum ponto durante o verão norte-americano, quando o Governo precisará renovar o teto de endividamento. Mas até lá, a política não vai provocar as flutuações que provocou em 2012.

No Brasil, o mercado continua a desapontar: a má performance do Bovespa, infelizmente para o Governo, não tem nada a ver com o cenário mundial; a errática política oficial nos setores elétrico e de energia teve efeitos devastadores na Petrobras e Eletrobrás; mais recentemente, o impacto da performance das empresas X (as empresas do grupo de Eike Batista) está entre os determinantes da má performance do índice. De fato, a OGX se desvalorizou 85.88% em um ano, a MMX 72,44% e a LLX, 46,09%; a VALE 12%%, Petrobras 30% e a Eletrobrás 60%. É claro que existem oportunidades e setores que vão bem e mais uma vez a tarefa do investidor é fazer sua lição de casa e descobrir quais são estes temas. Quem apostou em empresas produtoras de bens de consumo popular se deu bem nos últimos anos. A BRFoods valorizou 26%, Lojas Americanas, 25% e lojas Renner, 16%, para citar algumas.

O problema é que o investidor não institucional brasileiro não tem acesso a suficiente informação para investir bem. Além disto, por muitos e muitos anos, os papéis do Tesouro eram extremamente atrativos. Até o ano passado, bastava deixar o dinheiro em um fundo ligado a taxa de juros e obtinha-se um retorno de mais de 5% real. O sonho acabou. O que o investidor está fazendo para ter rentabilidade? Alguns estão comprando apartamentos em Miami, outros em Nova Iorque e muitos no Brasil.

O mercado imobiliário sempre é uma alternativa, na falta de outras. Este setor teve um aquecimento extraordinário nos últimos anos e os preços de propriedades aumentaram muito. Vários fatores contribuíram, como a estabilização da economia, indicadores macro econômicos sólidos, crescimento do salário real e aumento do emprego, aliado a novas possibilidades de financiamento. Além disto, o Brasil tinha um déficit habitacional que vinha se acumulando por décadas. O aumento de preços levou alguns analistas a temer uma bolha, como a dos Estados Unidos, mas a verdade é que no Brasil não há a alavancagem que existia nos EUA e a regulamentação financeira é mais solida.

Este quadro está mudando e a falta de oportunidades de investimentos para indivíduos deixa o mercado imobiliário como única opção. Isto é o que aconteceu na China e ocasionou as cidades fantasmas, cheias de prédio vazios.

Finalmente, não poderia encerrar sem uma palavra sobre a presidente. No primeiro ano do Governo, fiz repetidos elogios nestas páginas em virtude de sua capacidade de tomar decisões rápidas em momentos difíceis, o que era ainda mais impressionante se comparássemos com a inércia dos líderes europeus e americanos. Agora, olhando para trás, para 2012, temo que esta capacidade de tomar decisão tenha se transformado em voluntarismo.

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