Lugo: “Tive 27 horas para defesa”

Em entrevista, ex-presidente paraguaio condena o golpe que sofreu, defende a expulsão do seu país da OEA e elogia o papel do Brasil

Lugo: “Tive 27 horas para defesa”
Lugo: “Tive 27 horas para defesa” (Foto: REUTERS/Mario Valdez)
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247 – Por telefone, o ex-presidente do Paraguai, Fernando Lugo concedeu entrevista exclusiva ao jornal Correio Braziliense. Disse que vítima de um golpe e que só teve 27 horas para apresentar sua defesa. Leia:

"A história vai nos julgar", diz Lugo

"Nem sequer tive direito à defesa", diz Lugo em entrevista ao Correio

Rodrigo Craveiro, do Correio Braziliense

“Todos os dias peço perdão. (…). A história vai nos julgar e nos condenar pelo que fizemos ou deixamos de fazer.” Durante 12 minutos, o presidente destituído do Paraguai Fernando Lugo concedeu uma entrevista incisiva ao Correio, por telefone, de Assunção. O ex-bispo — deposto pelo Congresso em um julgamento político sumário, no último dia 22 — assumiu o mea-culpa por erros cometidos à frente do Palácio de Los López, mas rejeitou responsabilidade no massacre de Curuguaty — a desapropriação de uma fazenda terminou na morte de oito policiais e de nove sem-terra, em 15 de junho. Lugo voltou a afirmar que seu impeachment foi repleto de erros. “Nem sequer tive direito à defesa”, declarou. O ex-presidente defendeu a expulsão do Paraguai da Organização dos Estados Americanos (OEA) e alertou para o risco de o “golpe parlamentar” contaminar a democracia na América Latina. Ele também destacou o papel do Brasil à frente da região.

Como analisa o impeachment a que foi submetido? Foi um golpe, uma violação à democracia?
Sem nenhuma dúvida. Foi um golpe à democracia, um golpe à institucionalidade, um golpe ao processo democrático paraguaio. Pode ser que tenha legitimidade, mas eles usaram um marco ilegal, maquiado e forçado, para realizar o golpe de Estado. E os golpes de Estado têm muitos nomes. Como falam no campo da cibernética, foi um golpe de Estado 2.0. Um processo cheio de erros. Nem sequer tive o direito à defesa nem direitos fundamentais, como os direitos humanos.

Alguns especialistas afirmam que seu julgamento político foi respaldado pela Constituição...
Qualquer pessoa tem oito ou nove dias para provar a sua defesa. Eu tive 27 horas. Então, foi um processo sumário, acelerado. Os meus direitos de cidadão não foram respeitados suficientemente. O golpe foi ilegítimo, assim como o processo de julgamento.

O senhor pretende organizar uma resistência política e disputar as eleições presidenciais de 2013?
A pergunta foi muito boa (risos). Por aqui, há agrupamentos, movimentos sociais, de agricultores e de estudantes, movimentos políticos progressistas... Estamos em uma reunião vendo as estratégias. Amanhã (hoje), sairei ao campo para visitar os acampamentos e as campinas, conversar com a gente. Não levando um discurso, mas escutando a cidadania e consultando como as pessoas veem o cenário político.

O que o senhor conversou hoje (ontem) com José Miguel Insulza, secretário-geral da OEA?
Foi simplesmente uma reunião informativa. O senhor Insulza veio acompanhado de seus embaixadores dos EUA, de Honduras, do México e do Haiti. Ele escutou o presidente Fernando Lugo e a equipe de advogados. Nós lhe demos vários elementos para que ele elabore um juízo.

O senhor espera uma punição ao Paraguai, por parte da OEA?
Sem dúvida. Não há muita diferença do que se passou em Honduras, três anos atrás. O mínimo, o mínimo, o mínimo... que se espera é a exclusão do Paraguai pela OEA.

O que ocorreu no Paraguai pode contaminar a América Latina?
A democracia se perdeu no Paraguai e na região. Os países que têm uma frágil democracia, sem dúvida, sempre estarão em perigo. Sobretudo as democracias que favorecem a grande maioria pobre e excluída do continente estão em perigo.

Como vê o papel do Brasil e da Unasul na mediação da crise?
Os países que têm tradições democráticas mais fortes que o Paraguai — como o Uruguai, o Chile, a Argentina e o Brasil — têm uma grande responsabilidade. Eles podem fortalecer as instituições democráticas na região.

Alguns políticos acusam-no pelo massacre de Curuguaty...
Curuguaty foi uma das mais legais decisões dos últimos anos. Nós recebemos o governo, em 2008, com 189 ocupações ilegais. No momento do massacre de Curuguaty, existiam 50. Fizemos mais de 100 desocupações pacíficas, sem derramamento de sangue, sem violência. (A desocupação de) Curuguaty foi por uma ordem policial (sic). A polícia, que é o braço executor da Justiça, não poderia dizer que não. Mas, lastimosamente, elementos estranhos aos sem-terra e aos policiais estavam ali, os semeadores da morte. Hoje, pode-se dizer que uma hipótese bastante plausível é a de que franco-atiradores começaram as mortes. O presidente não tem qualquer responsabilidade sobre isso.

O senhor se arrepende de algo em seu governo?
Eu me arrependo de muitas coisas. Todos os dias, peço perdão. Não existe um processo puro, não existe um chefe de Estado perfeito. Todos temos falhas e equívocos. A história vai nos julgar e nos condenar pelo que fizemos ou deixamos de fazer.

Que impacto terá a entrada da Venezuela no Mercosul?
Eu sempre tenho dito que (é preciso) ampliar o mercado no Mercosul... A Venezuela vai enriquecer o Mercosul. Espero a real integração da América Latina.

O senhor temia um banho de sangue no dia do impeachment?
Tínhamos a informação de que poderia se repetir o "março paraguaio". Na mesma praça, em março de 2009, morreram 10 jovens. O mesmo ocorreu em Curuguaty. Esse presidente humanista e pacifista não quis derramar nem uma só gota de sangue de nenhum paraguaio. Recebemos informações de que havia franco-atiradores na área. Tivemos que aceitar o que o Congresso estava decidindo.

O que o senhor gostaria de dizer à presidente Dilma Rousseff?
Tenho grande admiração pela presidente do Brasil. Sei que é um país que não é fácil de governar, mas que retomou a liderança do Mercosul. E é um dos melhores atores para a rápida solução desse golpe de Estado parlamentar.

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