Mercosul, "âncora" ou "balão"?

O bloco é uma espécie de condomínio atrasado e medroso, com muita retórica e pouco comércio



Nem sempre é fácil tirar lições dos fatos da história econômica das nações, pois a relação entre causas e efeitos raramente é clara e inequívoca. Uma evidência, no entanto, parece se impor sem a necessidade de maiores considerações: países ricos são os que têm mais comércio internacional.

Não conheço nenhuma exceção a essa regra. EUA, China, Japão, Alemanha são líderes incontestes, tanto em renda quanto em comércio. Os episódios mais recentes de países que deixaram de ser pobres e atrasados, quase todos eles da Ásia, são exemplos de apostas na liberdade de comércio.

Em se tratando de relações comerciais, o isolamento é o caminho certo para manter baixos níveis de desenvolvimento e bem-estar social. Os países emergentes que escolheram se voltar para dentro, por meio de medidas protecionistas e de restrições ao comércio, ficaram estagnados ou cresceram a taxas relativamente baixas.

Ver as economias do resto do mundo como ameaça é um truque perverso para enriquecer, indevidamente, oligopólios de produtores domésticos que só admitem ser competitivos com tarifas. Nunca com inovações.

Quem paga o preço dessa esperteza é a sociedade, condenada a consumir produtos de pior qualidade e preços mais altos, sem falar no crescimento econômico que se perde.

Infelizmente, o Brasil ainda cultiva a velha cultura do protecionismo. No começo, pela razão objetiva de que nossa economia não gerava capacidade para importar e vivia em eterna crise cambial. Mais tarde, mesmo na ausência de qualquer crise de pagamentos ao exterior, adotamos o princípio de que o mercado interno era um recurso da nação e devia ser resguardado para os produtores locais.

O comércio internacional, por ideologia ou interesses mais pragmáticos, fixou-se em nosso imaginário como uma ameaça a evitar e combater. A consequência é que nossas transações com o mundo seguem tímidas, a despeito de todo o processo de globalização. Segundo a OMC, o Brasil representa apenas 1,5% do comércio mundial.

Enquanto isso, quase todos os países com relevância no cenário econômico mundial não param de se movimentar em busca de acordos de livre comércio para incrementar exportações e importações.

E nós, como um ponto fora da curva, mantemo-nos ao lado de nossos vizinhos.

Não sou especialista em economia internacional. Mas me parece claro que os países podem fazer acordos comerciais de dois tipos.

Um eu chamaria de "acordo balão", que eleva o país acima de sua própria superfície e descortina um universo de possibilidades. O outro é o "acordo âncora", que imobiliza o país, como se o prendesse ao fundo do mar.

"Acordo balão" teria sido a Alca (Associação de Livre Comércio das Américas), que alguns brasileiros se orgulham de ter matado no nascedouro. Poderia ser, também, um outro tratado de livre comércio com a União Europeia, com os países da Ásia ou com Canadá e Austrália.

Exemplo claro de "acordo âncora" é, inegavelmente, o Mercosul, que, a cada dia mais, converte-se em um clube ideológico.

É uma espécie de condomínio atrasado e medroso, com muita retórica e pouco comércio. O Mercosul teme o comércio livre e impede que o Brasil faça acordos com o resto do mundo, a não ser que se conforme e se limite aos termos da política argentina.

O Brasil ficou grande demais para se submeter às limitações impostas pela cultura do atraso que teima em não nos deixar ou ser abafado pela miopia kirchnerista ou bolivariana.

A Alca, se tivesse se tornado realidade, possibilitaria ao Brasil acesso preferencial ao mercado americano antes da chegada dos produtos chineses, o que ocorreu em seguida. Teríamos chegado na frente.

Esse era o sentido do acordo que recusamos, com medo da concorrência dos manufaturados americanos. A invasão americana que quisemos impedir foi substituída pela invasão chinesa.

É a história teimando em seguir seu curso, apesar de nós.

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